Nicole Barcelos

Existem algumas regras para se ser um bom vizinho: não fazer barulho de manhã cedo ou tarde da noite; cumprimentar os outros moradores ao dividir o elevador; e manter, ao que parece, sempre muita discrição, e não incomodar nunca, em hipótese alguma, ninguém! Assim parecem pensar, ao menos, os pais da protagonista de O meu vizinho é um cão, que se chocam com a chegada dos novos vizinhos de prédio que não são nada comuns. 
Originalmente publicado em Portugal pela Planeta Tangerina, no Brasil, o livro ganhou edição da extinta editora Cosac Naify no ano de 2010. Nele, o leitor acompanha uma das moradoras do prédio em que se desenrola toda essa história, e a chegada de cada novo vizinho que vem ocupar os apartamentos vazios. 
Primeiro chega o cão, com suas caixinhas e caixões, espalhando pelo no prédio e tocando seu saxofone. Depois, um par de elefantes cujo “dar de trombas” parece pouco usual. Por fim chega o jacaré, aparentemente ameaçador, mas de muito bom coração. Enquanto a menina se encanta por cada um deles, seus pais reprovam as atitudes dos novos inquilinos, não vendo o que ela vê de bom nas diferenças de cada novo vizinho. Em um momento, assim diz o texto de Isabel Minhós Martins:

“No outro dia disse aos vizinhos: 
‘Não acham esquisito que os meus pais vos achem esquisitos?’ 
Ao que eles responderam imediatamente: 
‘Os teus pais é que são esquisitos!’.
‘Olham-nos de cima a baixo’, queixou-se o cão. 
‘E sempre com um ar superior’, disseram os elefantes” 

Com texto visual de Madalena Matoso em tons de rosa, vermelho e azul (muito premiado, aliás), a história tem certo tom de fábula às avessas, afastando o leitor de uma moral fechada em si mesma e, pelo contrário, abrindo a possibilidade de se olhar para o outro com novos olhos.

MARTINS, Isabel Minhós. O meu vizinho é um cão. Ilustr.: MATOSO, Madalena. São Paulo: Cosac Naify, 2010.


Nicole Barcelos é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Atua como bolsista do Prolij e vive se perdendo em buracos de coelho.
Ao longo do terceiro bimestre da disciplina de Literatura Infantil Juvenil, a professora dra. Berenice Rocha Zabbot Garcia desenvolveu uma atividade com os acadêmicos do 2º ano de Letras, voltada para a criação de textos híbridos a partir da análise de obras infantis juvenis previamente selecionadas. Consistente em uma resenha crítica da obra e uma leitura comparativa analisando sua relação com contos de fada, o resultado de um dos trabalhos desenvolvidos pode ser conferido abaixo!

“Mamãe, e o meu beijo?”

Ana Luíza Busnardo
Beatriz Maria Eichenberg
Flavia Schlogl
Gabrielly Pazetto
Luana Simão
Tamara Gericke
Thiago Túlio Pereira

Um beijo é, sem dúvidas, um dos maiores atos de afeto que dois seres podem demonstrar, um em relação ao outro. Seja de amor, amizade ou companheirismo, deixar de recebê-lo é um tanto quanto desconfortável, e é isso que acontece na obra "O Beijo", da escritora e ilustradora Valérie D’Heur: uma pequena ave, após receber instruções de sua mãe para mais um dia, espera por um beijo de despedida, mas a mãe, muito apressada, não o dá.
É interessante observar como a autora traz a perspectiva da contemporaneidade para o texto, pois o narrador-personagem fala sobre sua mãe: “Estava muito apressada hoje”, manifestando, assim, a realidade de muitos pais e mães que esquecem diariamente dos filhos-aves.
Após ter seu beijo esquecido, a pequena ave vai em busca de algum outro animal que possa lhe beijar, e passa pela girafa, a avestruz, um felino, mas acaba mesmo é criando laços com o rinoceronte, o que é bastante interessante, pois a figura do rinoceronte é a personificação da força e também dos laços familiares, já que a fêmea do rinoceronte permanece com o filhote por vários anos.
Para coroar a composição, a autora traça ilustrações que brincam com tons pastéis e com o ambiente da savana, fazendo da experiência do leitor ainda mais intensa e divertida.




D’HEUR, Valérie. O Beijo. São Paulo: Brinque-Book, 2003.

Além da resenha crítica, os acadêmicos desenvolveram um blog com diversos textos apontando semelhanças entre a obra lida e contos de fada, além de trazerem aspectos da obra para a contemporaneidade. O blog pode ser acessado clicando na imagem abaixo!


Ana Luíza Busnardo é estudante de Letras (Português e Inglês), curte rock, fã de The Beatles, adora cachorros e fala Top!

Beatriz Maria Eichenberg é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille. Vive em meio à música e compõe canções que falam do coração.

Flávia Schlögl é estudante de Letras – Língua Portuguesa e Língua Inglesa e professora de Inglês em uma escola de idiomas. Está sempre viajando por uma série, um livro ou por uma música, mas ela sabe que o coração da vida é bom.

Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Porutuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis.

Luana Simão é graduanda em Letras na Univille (Língua Porutuguesa e Inglesa) e divide seu tempo vago lutando em batalhas épicas, governando reinos distantes e viajando pelo hiperespaço.

Tamara Gericke é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, paulista, se vendeu na primeira mordida de chineque com farofa, prolixa, não sabe sintetizar as ideias, levou, por exemplo, dois dias pra escrever isso.

Thiago Túlio Pereira é Professor de Geografia e graduando em Letras pela Univille. Ama ler o Mundo através dos livros, das observações e das viagens, e escrever sobre essas leituras.
Nesse ano, de 2 a 4 de agosto, o Prolij (Programa Institucional de Literatura Infantil Juvenil da Univille) esteve na cidade do oeste paulista de Presidente Prudente para discutir as (trans) formações de leitores pelo texto literário no V Congresso Internacional de Literatura Infantil Juvenil do CELLIJ (Centro de Estudos em Leitura e Literatura Infantil e Juvenil "Maria Betty Coelho Silva"). O programa já havia participado do evento em 2004, também em Presidente Prudente, casa do CELLIJ (vinculado à Universidade Estadual Paulista, UNESP), então ainda com 7 anos de existência.

Agora, aos 20 anos, o Prolij foi representado no evento pela apresentação de um poster (exposto no dia 3 de agosto, no próprio campus da UNESP), intitulado Eu livro, tu livras, nós livramos: a transformação do não-lugar em lugar a partir da disseminação literária, que tratava do projeto vinculado Liberte um livro

As representantes desse e da Univille (Universidade da Região de Joinville) a viajarem a Presidente Prudente foram as acadêmicas bolsistas do programa, Nicole de Medeiros Barcelos, apresentadora do trabalho, e Gabrielly Pazetto, que compartilham a autoria do poster junto às professoras Berenice e Alcione, além da ex-bolsista do programa, Cymara Scremin Schwartz Sell. 

Abaixo, é possível conferi-lo na íntegra!



Gabrielly Pazetto

1981: Brasil em plena ditadura militar. A recém-revogação do AI-5 e o fim do bipartidismo levaram o país a traçar os primeiros passos para enfim restabelecer sua democracia e abandonar os férreos tempos de ditadura - mesmo assim, a população ainda estava sob as mãos de aço dos militares. 
Ruth Rocha, paulista, então com cinquenta anos, a partir da observação deste contexto, constitui a obra O que os olhos não veem. Um rei, de um reino muito distante, sofre de uma doença terrível: não consegue ver os seus súditos (porque eram muito pequenos) e não consegue ouvi-los também. Da mesma forma que os súditos do rei não eram ouvidos, nem vistos, a população brasileira no contexto da ditadura militar também não era. 
Ruth Rocha, assim, constrói uma narrativa divertida, brincando com palavras e versos em rimas espertas: “E assim, quem fosse pequeno, / da voz fraca, mal vestido, / não conseguia ser visto. / E nunca, nunca era ouvido.” 
As ilustrações de Carlos Brito, por sua vez, brincam com as cores e os tamanhos dos súditos e do rei. Através de tons vibrantes, ele ilustra barões, cavaleiros, ministros, camareiros, damas, valetes e um rei, todos bem rechonchudos. 
Desta forma, O que os olhos não veem é uma obra indispensável para se pensar sobre poder e, mesmo que o sistema político tenha mudado, continua atual, trinta anos após sua primeira publicação.

E todos juntos, unidos 
Fazendo muito alarido 
Seguiram para capital, 
Agora, todos bem altos 
Nas suas pernas de pau. 
Enquanto isso, nosso rei 
Continuava contente. 
Pois o que os olhos não veem 
Nosso coração não sente...” 

 (trecho do livro)


ROCHA, Ruth. O que os olhos não veem. Ilustr.: BRITO, Carlos. São Paulo: Moderna, 2012. 


Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Porutuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis.
Sabrine Sharon Padilha

Para qualquer um que ame ler, a descoberta das palavras pode ser um evento mágico e inesquecível, como se um novo mundo, antes escondido, se revelasse de repente. É o caso do personagem do livro O menino que descobriu as palavras, de Cineas Santos (Editora Ática, 1998). 
Com frases curtas, em forma de poesia, nós acompanhamos o menino e seu primeiro encontro com o significado das palavras, aos poucos ele vai descobrindo que existem palavras que transmitem coisas boas e coisas ruins. A sensação que nos passa é que as palavras em si são coisas vivas, entidades com personalidade própria. 
As ilustrações de Gabriel Archanjo são belas e conseguem captar e transmitir bem as intenções do texto. O menino que descobriu as palavras é um livro curto e de leitura rápida, voltado para crianças bem pequenas que estão na fase de contato inicial com a leitura, muito agradável e capaz de conectar também os mais velhos com a criança em nós que um dia, há muito tempo, viu as palavras pela primeira vez.

SANTOS, Cineas. O menino que descobriu as palavras. Ilustr.: ARCHANJO, Gabriel. São Paulo: Ática, 1998.



Sabrine Sharon Padilha é aluna do curso de História na Univille e quando sonha, ela sempre se lembra.
Evelin de Freitas Costa

Uma viagem pela história do Brasil contada de uma forma espontânea e ao mesmo tempo crítica. A repartição do mundo, de Arlene Holanda, foi publicada em 2007 pela Edições Demócrito Rocha, e busca, por meio de linguagem metafórica e poética, encontrar a explicação para um questionamento de Cauã, protagonista do conto. 
Cauã é um indiozinho com cabelos escuros e pele beijada pelo sol. Muito curioso, o pequeno curumim vive em uma tribo rodeado por animais. Ele en-tão se questiona como pode ter sido feita uma repartição tão desigual do mundo: "E tudo foi repartido, pro índio pouco sobrou, mas a alma guerreira, essa nunca se ca-lou, e o seu grito de guerra pela floresta ecoou". 
As ilustrações de Arlene Holanda e Suzana Paz, por sua vez, contam com desenhos e fotos antigas, que retratam a chegada dos portugueses ao Brasil. 
Pode-se notar que a narrativa é contada sob a perspectiva do indígena, instigando o leitor a buscar conhecer e entender ambos os lados desta mesma história, que é tão minha quanto sua. 

HOLANDA, Arlene. A repartição do mundo. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2007.



"Porque ela viaja nos livros e se encontra nas palavras, Evelin" (Estudante de Letras - Português e Inglês na Univille)
Gabrielly Pazetto
Nicole Barcelos
*Agradecimentos especiais à Cymara Sell

Pai herói, pai vilão, pai ocupado, pai que se ocupa só com os filhos... Há muitas formas de ser pai. Há pais que nem tem laços biológicos e o são, e alguns os têm e não são pais. Mas essa figura que acalenta e protege, de que tamanho e forma que for, é sempre lembrada no segundo domingo de agosto. Por essa razão, hoje também lembramos os livros em que diferentes pais e filhos expressam (ou "deixam" de expressar) sua afeição um pelo outro.

O dia em que troquei meu pai por dois peixinhos dourados, de Neil Gaiman com ilustrações de Dave McKean – O que você daria em troca de dois peixinhos dourados (e não quaisquer peixinhos, mas Sawney e Bayney, os peixes de Nathan)? Para o protagonista dessa história de Neil Gaiman e Dean McKean, seu pai parecia um bom equivalente. Quer dizer... bem, ele só lia o jornal, então que falta faria? Acontece que, ao chegar em casa com Sawney e Bayney, sua mãe o força a trocá-los de volta pelo pai. Nesse divertidamente subversivo conto, permeado pela aura de mistério tanto no texto verbal quanto no visual, o leitor é convidado a acompanhar as peripécias desse garoto que tenta, então, destrocar seu pai pelas coisas mais inimagináveis. 

Adivinha quanto eu te amo, de Sam McBratney, ilustrado por Anita Jeram – O quanto um pai pode amar o filho? E o quanto um filho pode amar o pai? No pequeno conto de Sam McBratney, Coelhinho e Coelho Pai tentam encontrar a medida do amor que tem um pelo outro. Belamente ilustrado, esse divertido jogo com ares de competição vai levá-los a descobrir que o amor não é assim tão fácil de se medir.



A boca da noite, de Cristino Wapichana com ilustrações de Graça Lima - Dum e Kupai são dois indiozinhos bem curiosos que adoram ouvir as histórias que o seu pai conta à beira da fogueira. Certa noite são surpreendidos pela história da boca da noite – uma boca gigante que engole e transforma tudo em escuridão. Nesta envolvente narrativa de Cristino Wapichana, a figura paterna é responsável pela transmissão da tradição oral e por alimentar o imaginário dos pequenos curumins. 



Gorila, de Anthony Browne – O consagrado escritor e ilustrador britânico Anthony Browne narra aqui a história da pequena Hannah, que tem uma paixão um tanto peculiar: a garota adora gorilas. Seu sonho é ter um gorila só seu, ou pelo menos ir ao zoológico para conhecer um de verdade, mas o pai, a quem Hannah recorre, sempre diz “Agora não. Estou ocupado. Quem sabe amanhã?”. Cansada de insistir tanto, ela resolve deixar sua própria imaginação levá-la ao zoo. Nesse delicado – e maravilhosamente ilustrado – livro, Browne traz um pai bastante contemporâneo que, apesar de tudo, consegue surpreender a filha no apagar das luzes.



Owl Moon, de Jane Yolen com ilustrações de John Schoenherr – Quando você sai para observar corujas, você não precisa de nada além de esperança. Essas são as palavras do pai da protagonista do sonho gelado que parece ser Owl Moon. Poética por essência, a narrativa de Jane Yolen e John Schoenherr acompanha a silenciosa aventura vivida por pai e filha em uma noite de inverno. Os silêncios aqui presentes, porém, falam muito das relações entre pais, filhos e a própria natureza – e aquecem o coração com esperança, ao som do chilrear das corujas. 



O homem que amava caixas, de Stephen Michael King – Era uma vez um homem. O homem tinha um filho. O filho amava o homem – e o homem amava caixas. Nos deliciosos versos e traços de Stephen Michael King, descobre-se, porém, muito mais do que o amor por caixas desse pai que tanto gosta delas – e a expressão de um outro amor, mesmo que bastante tímido.


As aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi – Mestre Cerejo não esperava que o toco de madeira que fora parar em sua oficina fosse reclamar quando tentasse transformá-lo em pé de mesa. Certo de que o toco falante guardava algo especial, presentou seu amigo Gepetto com ele, já que o carpinteiro pretendia criar um boneco articulado que soubesse dançar, lutar esgrima e dar saltos-mortais (e enriquecê-lo no processo). É assim que começam as peripécias do boneco cujo nariz cresce sem parar que o mundo inteiro ficou conhecendo como Pinóquio. Gepetto não sabia estar criando um filho ao esculpir Pinóquio, mas é isso que o pedaço de madeira transformado em menino o é: e é ele quem transforma o velho senhor em pai, e quase o faz perder o que resta de seus cabelos com suas travessuras. 



O ladrão de raios, de Rick Riordan – Percy Jackson tem 12 anos e não faz ideia de que seu pai é um antigo conhecido de muita, mas muita gente. Você também não faria, se estivesse preocupado em não ser expulso de mais uma escola e bem, escapar de ser decapitado por uma górgona. Nessa bem-humorada aventura, porém, Percy vai descobrir que há muito mais de grego em si do que seu nome.



Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Porutuguesa e Inglesa) pela Univille e técnica em Informática. Atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis. 

Nicole Barcelos é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Atua como bolsista do Prolij e vive se perdendo em buracos de coelho.
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