Gabrielly Pazetto
Nicole Barcelos
*Agradecimentos especiais à Cymara Sell

A literatura de um povo (literalmente) diz muito sobre ele. Ela modifica-se tanto em conteúdo quanto em forma para assumir os contornos da realidade que integra, ou para distorcer e enfrentar as fronteiras que a sociedade vigente impõe. A literatura de um povo também diz muito sobre a sua língua. Como se representa o mundo, como se diz certas coisas - ou não se diz... Por isso, a literatura de um povo é um ótimo meio de conhecê-lo, seja em suas traduções para a nossa própria língua, seja no próprio texto original dos autores. Hoje, propomos um movimento diferente aqui no blog: nos dedicamos a olhar por alguns momentos livros escritos originalmente em inglês em suas versões originais, em tudo que tem para oferecer. Ditos livros infantis em inglês, esses são, na verdade, livros para novos leitores - não importa a idade e o tamanho deles. Que tal se aventurar em novas histórias em um novo idioma?! 


Where the wild things are, de Maurice Sendak – Vestido com seu traje de lobo, o pequeno Max desafia sua mãe e é deixado de castigo em seu quarto, onde as tramas da vida real dão espaço a uma floresta. Suas aventuras farão com que ele descubra where the wild things are. Escrito e ilustrado por Sendak, o livro é um clássico da literatura infantil mundial e ganhador da Medalha Caldecott de 1964, que premia anualmente a obra infantil que mais se destaca em termos de ilustrações.



The heart and the bottle, de Oliver Jeffers – Como proteger o coração das dores do mundo? A protagonista de The heart and the bottle pensou que talvez fosse por bem guarda-lo em uma garrafa, mas nem sempre esse foi o seu lugar. No começo desse sensível livro ilustrado de Oliver Jeffers, conhecemos sua protagonista ainda cheia de curiosidade encantamento com o mundo. Ao se deparar, porém, com um vazio talvez grande demais para compreender, ela mesma se esvazia de seu próprio coração, e, então, o mundo também começa a parecer cada vez menos curioso e encantador. Para recuperar seu coração e, com ele, sua sensibilidade, ela vai precisar de uma “mãozinha” – que talvez esteja onde ela menos espere.



A child of books, de Oliver Jeffers e Sam Winston – A epígrafe que começa esse livro talvez o defina da melhor maneira: “The universe is made of stories, not atoms” (Muriel Rukeyser). Esse livro é feito de histórias. Histórias que conhecemos, algumas mais do que outras, mas que são os tijolos sobre os quais se cimentaram todas as outras histórias que viemos a conhecer. “A child of books” (traduzido talvez não tão felizmente para “A menina dos livros”, sob o selo Pequena Zahar) é literalmente construído sobre essas histórias: seus protagonistas viajam em uma onda de imaginação sobre trechos de As viagens de Gulliver, A família Robinson, As Aventuras de Pinóquio, 20 mil léguas submarinas e tantos outros clássicos “marítimos”; escala uma montanha construída de passagens de Peter Pan; adentra uma caverna escurecida pelos excertos de A ilha do tesouro; e até mesmo se embrenha em uma floresta de contos de fadas. Trata-se de um livro para quem ama livros, para quem ama histórias, e para quem sabe que são elas que traduzem o que há em nós de mais humano: a imaginação.



Cloudy with a chance of meatballs, de Judi e Ron Barrett – O que você faria se, ao invés de chuva, caísse do céu uma refeição inteira? Ou melhor, três: café da manhã, almoço e jantar. Em Cloudy with a chance of meatballs, o avô dos protagonistas, inspirado por um incidente com as panquecas do café, conta a seus netos uma “história de ninar” um tanto peculiar, sobre uma cidadezinha chamada Chewandswallow (chew and swallow), em que as mudanças no tempo traziam diferentes ingredientes para as refeições de seus moradores. Tudo aqui é pitoresco: da cidade, seus moradores e seu tempo, até as ilustrações, detalhadas, mas coloridas em tons atípicos e coloridos que transportam ao leitor para uma estética cinquentista americana. Ao final, o leitor pode se perguntar sobre o quão fictícia essa história realmente pode ser.



The day the crayons quit, de Drew Daywalt e Oliver Jeffers – Duncan só queria colorir, mas quando abriu sua caixa de gizes de cera para fazê-lo, encontrou apenas cartas dizendo "Não aguentamos mais" e "Estamos em greve!". Pois, em "The days the crayons quit", de Drew Daywalt e Oliver Jeffers (traduzido como "A revolta dos gizes de cera" pela Editora Salamandra), os gizes de Duncan desistem de serem mal utilizados pelo seu dono e simplesmente vão embora, deixando nada mais do que recados para o menino. Ora, com o amarelo e o laranja disputando para ser a cor do sol, o rosa relegado a "cor de menina", o bege sendo erroneamente chamado de "marrom-claro" ou de "amarelo-escuro" e o azul sendo utilizado apenas para pintar a água, seria de se imaginar que buscariam empregos melhores em outro lugar, não é mesmo? Nessa divertida história que dá voz e vez aos gizes de cera, o leitor tem a oportunidade de ler todas as suas cartas endereçadas a Duncan, a partir das quais se constrói a narrativa, bem como ao curioso desfecho encontrado para essa pequena e colorida revolução! Indicado para leitores de todos os tamanhos, inclusive os adultos que acham que cada cor só serve para pintar um tipo de coisa!



The Gruffalo, de Julia Donaldson e Alex Scheffler – Quem não conhece o Grúfalo? Com seus dentes afiados, pústulas e aspecto feroz, a criatura coloca medo em todo mundo. Ao menos, é isso que diz o ratinho que protagoniza essa história quando em face do perigo de ser devorado (mais de uma vez) pelos mais diferentes predadores com quem cruza pela floresta. No seu texto original, The Gruffalo é ainda divertidamente rimado, de modo que suas repetições parecem uma música ou um poeminha bem-humorado sobre essa narrativa que parece quase uma mentira! (Eu disse quase, hein?)



The singing bones, de Shaun Tan – Qualquer livro de Shaun Tan poderia estar nessa lista.  O autor australiano, que é conhecido por dar vida às mais fascinantes e exóticas histórias através de sua escrita perspicaz e de seus desenhos quase surreais, nessa obra em particular, porém, ao invés de criar mundos alternativos, revisita e reinterpreta histórias que são, em muitos casos, velhas conhecidas de todos nós. Em The singing bones, reencontramos madrastas malvadas, irmãos traiçoeiros, raposas espertas e princesas em apuros que habitam o mundo dos contos de fadas compilados por Wilhelm e Jacob Grimm, mas de maneira um tanto inesperada. Shaun Tan seleciona e adapta, desses famosos contos, alguns de seus trechos mais famosos ou assombrados e, a partir deles, cria esculturas incríveis (e por vezes assustadoras também). A releitura imagética é o que há de mais precioso nesse livro: algumas das obras podem até revelar outras possibilidades de se olhar essas velhas histórias, como uma Rapunzel que é a sua própria torre, por exemplo. Não há outra palavra para definir The singing bones que não genial – como tudo que Shaun Tan presenteia o mundo, aliás.






Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis. 

Nicole Barcelos é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Atua como bolsista do Prolij e vive se perdendo em buracos de coelho.
Nicole Barcelos

Em um lugar qualquer, em um tempo qualquer, vaga pela noite uma diaba. De porta em porta, ela vai indagando quem encontra no caminho a respeito do paradeiro de sua filha, que sumiu sem deixar vestígios e da qual não se lembra direito. De profunda dor e incrível força poética, em A diaba e sua filha, a francesa Marie NDiaye constrói uma narrativa sobre identidade, medo e preconceito em que todos nós poderíamos ser a diaba ou aqueles que lhe fecham suas portas. 

Publicada em 2011 pela finada Cosac Naify, a estreia de NDiaye no gênero talvez ponha em cheque até mesmo o que alguns tenham por literatura infantil. Em uma bela edição que precisa ser urgentemente revisitada por uma nova editora, a autora francesa visita temas que podem ser considerados “difíceis” até mesmo para adultos, mas com uma sutileza e poesia que tornam essas “verdades duras” quase leves e oníricas, inclusive para leitores menos experientes. Com um tom como que de conto de fadas, Marie NDiaye tece uma narrativa, porém, que antes de condenar ou demarcar bons e maus, desfaz as fronteiras entre esses conceitos, sem morais prontas ou certezas a afirmar. 



As ilustrações de Nadja, por sua vez, estabelecem um diálogo encantador com o texto verbal. Sem contornos bem definidos, elas sugerem até mesmo a pouca clareza com que a própria Diaba é vista por seus interlocutores, e as fronteiras borradas que vemos ser dissolvidas. Os tons de azul do projeto gráfico dos desenhos também aprofundam o sentimento de solidão, frio e escuridão sugeridos pela narrativa verbal. Ao amarelo, tímido na capa, ausente nas ilustrações, e abundante no interior das capas, fica também sugerido o papel da luz que parece se acender ao fim dessa triste narrativa. 

A diaba e sua filha faz com que questionemos como nos colocamos ao bater à porta de alguém, e como nos prostramos diante daqueles que batem às nossas portas. Essa é uma história, afinal, sobre a maneira com que nos relacionamos com esses outros, com nossas mães, nossas filhas, e as pobres diabas que muitas vezes desumanizamos ao mero som de seus cascos.



NDIAYE, Marie. A diaba e sua filha. Ilustr.: Nadja. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
O espetacular está na superfície

Cymara Scremin Schwartz Sell


Seja procurando tesouros ou continentes exóticos, envergando pás metálicas ou de plástico, insistindo na terra empedernida ou na areia escorregadia, cavar buracos é recorrente como simples brincadeira da infância e uma frutífera metáfora literária. Exemplos talvez não faltem, mas basta citar a fábula “O fazendeiro e seus filhos”, de Esopo, e a redação escrita pela protagonista de “Os desastres de Sofia”, de Clarice Lispector, para lembrar dessa  variação do monomito, em que a busca por algo é o que de fato transforma em extraordinária a vida do sujeito comum.

Em “Sam & Dave dig a hole” (Candlewick Press, 2014), escrito por Mac Barnett e ilustrado por Jon Klassen, o mesmo tema é abordado de maneira criativa e irônica.


Sam e Dave são dois amigos que se dedicam à extenuante tarefa de cavar buracos em busca de “algo espetacular”, sempre acompanhados de seu perspicaz cachorrinho. Em muitos momentos eles se aproximam de tesouros valiosos, mas talvez não estejam atentos o suficiente para encontrar o que buscam. O texto de Barnett é tão enxuto quanto são despojadas as ilustrações de Klassen, e é na contraposição entre o que é dito e o que é mostrado que toda história é narrada com preciosa ironia. Selecionadas pela Coldecott Honor de 2015, as ilustrações merecem mesmo atenção especial: em tons terrosos, são cheias de vazios, numa rima perfeita com os buracos cavados pelos garotos. 

Se ao final Sam e Dave encontram o que procuravam, só o leitor atento poderá dizer. De qualquer modo, acompanhar os amigos nessa busca é o que há de verdadeiramente espetacular. Afinal, como diria algum filósofo, os encontros só acontecem na superfície. 



Cymara Schwartz é acadêmica de Letras na Univille e uma cavadora de buracos que achou na literatura coisas espetaculares.  

Somos diversos e ummm

Msc. Alcione Pauli
Professora e pesquisadora do PROLIJ

Na semana que oficialmente o calendário lembra que há povos indígenas no Brasil faço minha homenagem aos guerreiros que continuam na “luta” e resistem para que seus direitos sejam respeitados e suas artes sejam divulgadas. Desejo que a sociedade perceba o quanto de “floresta” há em nós e como somos tão diversos e ummm. 
Mais do que celebrar o dia dedicado aos indígenas, necessitamos urgentemente de olhares sensíveis para que o território indígena seja protegido, para que suas culturas ganhem visibilidade, para que os nossos conhecimentos sejam “descolonizados”. 
Convido os espaços de educação formal e informal e a sociedade, para refletir e vivenciar “um ritual secular para lembrar que temos raízes, temos passado, temos história.” MUNDURUKU¹.
A sonhar que... “num distante o rio onde os botos vivem como gente, num distante reino onde os povos da floresta se juntam aos povos da cidade”... YAMò
Escutar que... “Em sonho, o encantado disse que assim, a bela indígena deveria permanecer: ora uma garça brincando em meio a vegetação nas margens dos mangues e dos rios, ora um pássaro preto cuja cor se confunde com a da baraúna”. GRAÚNA³.
Neste sentido, celebramos este e todos os “presentes-dias”, pois os povos indígenas são sempre em cada amanhecer e não em um só dia de abril. Celebremos: lendo histórias, conhecendo pinturas, assistindo filmes, ouvindo músicas, comendo as “farinhas” e acompanhando as lutas indígenas pela igualdade e pelo direito de viver.



¹MUNDURUKU, Daniel. Parece que foi ontem. Ilus. Maurício Negro (tradução de Jairo Alves Munduruku). São Paulo: Global, 2006.
²YAMÃ, Yaguarê. Um Curumim, uma canoa. Rio de Janeiro.: Zit, 2012.
³GRAÚNA, Graça. Criatuas de Ñanderu. Baueri, SP: Manole, 2010.


Ah, se vivo fosse...
Se vivo fosse, Lobato completaria hoje 136 anos. Ah, se vivo fosse! Quanto ainda nos diria e quanto poderíamos descobrir com esse que foi pai afetuoso, ativo e amparador de nossa Literatura Infantil. Digo afetuoso, visto que amava o que escrevia e aqueles que o liam. Digo ativo, pois que não só criou textos para crianças, como disseminou a ideia da importância do ler. Digo amparador, porque mesmo já tendo deixado o plano terreno, amparou os que se fizeram seus filhos literários, tornando-se escritores na trilha aberta por ele. 
- Ah, Lobato, não mais direi “ se vivo fosse”. 
Gritemos, então:   Lobato, presente!
                
 Profa. Dra. Sueli de Souza Cagneti


A Impotência da Humanidade

Ana Luíza Busnardo
Beatriz Eichenberg
Flávia Schlogl
Gabrielly Pazetto
Luana Simão
Tamara Gericke

O ano é 1942. O mundo é assolado pela Segunda Guerra Mundial. No Sítio do Picapau Amarelo, Dona Benta se depara com todas as notícias trágicas da guerra e fica triste. Emília, é claro, inconformada com a crueldade do mundo, decide acabar com a guerra: furta o Pó de Pirilimpimpim do Visconde de Sabugosa e viaja até a Casa das Chaves para acionar a chave que controla as guerras, mas é claro que o plano acaba dando errado e Emília acaba acionando A Chave do Tamanho (editora Globo, 2008, com ilustrações de Paulo Borges).
A narrativa acompanha as andanças de Emília (agora com 1 centímetro de altura), em um mundo onde todos os seres humanos foram encolhidos. A ex-boneca de pano passa a observar as diferenças nesse mundo cheio de minúsculos humanos. Com todas as pessoas do tamanho de um inseto, muitas teriam sido sufocadas pelas próprias roupas ou até terem sido afogadas durante os banhos, mas também, do tamanho pequenino em que estavam, Emília conclui que não podiam mais guerrear.
Lobato constrói mais do que uma narrativa que acompanha as aventuras de Emília. Através da impotência dos humanos, ele questiona a guerra, as ideologias dominantes do século XX e o mundo urbano. Em uma passagem fatídica, Emília, ao encontrar-se com Hitler, O Grande Ditador, lhe dá uma lição de moral sobre a paz e ameaça: “... esse misterioso alguém só restaurará o tamanho perdido se tiver a certeza de que Vossa Excelência vai fazer a paz e botar fora todas as horrendas armas que andou amontoando, e desse momento em diante viverá na mesma paz e harmonia com o mundo em que vivem as formigas e abelhas.”
No sítio, Dona Benta e Visconde também refletem sobre as novas e antigas ideias, tendo em vista o novo mundo que estava surgindo. Enquanto as crianças se divertiam em um pires de água, Dona Benta, Coronel Teodorico e Tia Anastácia ficam resistentes e Visconde reflete que as “ideias antigas” deles teriam que ser revistas e reformadas para o mundo atual, lembrando-lhes que se continuarem com o mesmo pensamento, não teriam espaço no mundo que estava nascendo. 
Lobato, desta forma, enche sua narrativa de reflexões e pensamentos sobre a sua realidade no século XX, porém, pode-se facilmente fazer as mesmas reflexões, a partir de sua obra, sobre o século XXI, 67 anos após o lançamento original do livro. 

LOBATO, Monteiro. A Chave do Tamanho. São Paulo: Globo, 2008.
Gabrielly Pazetto
Nicole Barcelos

Quem não conhece A pequena sereia? Publicado pela primeira vez em 1837, o conto que ficou famoso pela compilação de Hans Christian Andersen inspirou músicas, filmes, desenhos e obras de arte de toda sorte, permeando o imaginário infantil ainda hoje, quase dois séculos depois da primeira vez que “veio à tona”. Nos livros, ganhou também infinitas versões, em antologias ou em versões solo, como esta, trazida ao Brasil pela SM, com texto adaptado de Muriel Molhant e ilustrações do belga Quentin Gréban – ilustrações que, aliás, dão novos horizontes a esse clássico da literatura infantil.

Com o texto verbal se mantendo fiel à versão de Andersen, nesse livro o leitor também acompanha a mais jovem das filhas do Rei do Mar, que, ao completar 15 anos, tem a chance de visitar a superfície pela primeira vez. Ao fazê-lo, porém, a sereiazinha acaba também salvando um príncipe de um naufrágio e se apaixona por ele. Ao retornar para as profundezas novamente, a pequena sereia não consegue tirar o rapaz de olhos negros de seus pensamentos e, desesperada em poder se unir a ele, procura a Feiticeira do Mar para que ela possa lhe dar pernas no lugar de sua cauda, e assim poder finalmente reencontrar seu príncipe. O preço para tal é caro: sua linda voz. E se não tiver suas afeições correspondidas pelo amado, o custo é ainda mais alto: a pequena sereia corre o risco de perder sua própria vida.

Diferente daquele final conhecido por muitos, a versão tradicional desse conto de feliz não tem mesmo nada. A pequena sereia é talvez um dos contos mais tristes compilados por Andersen, ao lado d’A Pequena Vendedora de Fósforos. Mas é, não obstante, uma história belíssima.

As ilustrações de Gréban também levam a obra para um lugar bem longe daquele que popularmente conhecemos – mais especificamente, levam direto para o Oriente da tradição sino-japonesa. Em suas pinturas de técnicas mistas que misturam os tons de azul e verde do mar, e o vermelho e amarelo intenso da terra, o ilustrador afasta-nos da visão eurocêntrica desse conto, matizando-o com outros tons – com os cabelos negros e olhos escuros de seus protagonistas, e com as luzes e sombras que assolam o universo colorido que habitam.

Essa interpretação (mais do que possível e necessária) a essa narrativa clássica é um respiro bem-vindo em tempos de massificação e cristalização de certas imagens – impossível, pois, ouvir “A pequena sereia” e não pensar na garota de cauda azulada e cabelos vermelhos. Dessa forma, a versão que vemos aqui também é um convite à imaginação – a pensar e sonhar com nossas próprias sereias, príncipes e feiticeiras, e o que podemos descobrir ao sairmos de certas superfícies.

ANDERSEN, Hans Christian; GRÉBAN, Quentin. A Pequena Sereia. São Paulo: Edições SM, 2011.



Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis.

Nicole Barcelos é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Atua como bolsista do Prolij e vive se perdendo em buracos de coelho.
Gabrielly Pazetto
Nicole Barcelos
*Agradecimentos à Alcione Pauli

Até onde vão as fronteiras entre a literatura "adulta" e a literatura "infantil"? Há mesmo essas fronteiras quando pensamos em literatura? Por vezes, é certo, elas são mais tênues do que imaginamos, principalmente em um mundo repleto de fluidez como o em que vivemos. É isso que vem corroborar, também, a nossa lista de hoje! Grandes autores de "gente grande" também escreveram obras ditas infantis ou juvenis (embora sirvam para qualquer tamanho de pessoa), e não são poucos: de Mario Vargas Llosa à Gabriel García Marquez, passando por Galeano, Saramago, e também Cortázar e Clarice Lispector. Hoje, apresentamos 10 dessas obras de autores que escreveram para adultos e também para crianças - e com muito primor. 

O lagarto, de José Saramago, com ilustrações de J.S. Borges – Essa é uma história de fadas - quer dizer... embora as fadas não façam uma aparição nela, está bastante claro que o que ocorre aqui só poderia ser obra delas, evidentemente. Nesse que é seu segundo livro infantil (o primeiro foi “A maior flor do mundo”, de 2001), Saramago mais uma vez nos desafia com um conto permeado por nuances sagazes e sutis, dessa vez acompanhando a história de um lagarto gigante que, certo dia, surge em meio a uma cidade para provocar grande alvoroço. Basta dizer que essa inusitada visita tem efeitos todo peculiares - por ação das fadas, não se esqueça - e que vale muito conferir a surpresa que guarda em seu fim. Em 2017, a Fundação José Saramago realizou uma exposição sobre a obra em Portugal, que conta com as ilustrações do xilogravurista brasileiro J.S. Borges, e Adriana Calcanhoto a leu na íntegra em um vídeo que pode ser conferido aqui



Como nasceram as estrelas: doze lendas brasileiras, de Clarice Lispector – Nesta coletânea de 12 lendas brasileiras, Clarice traz uma história para cada mês do ano. Bebendo muito da tradição oral indígena, a autora reúne lendas muito conhecidas do imaginário de crianças (e adultos) brasileiros, como Alvoroço de festa no céu, As aventuras de Malazarte e A perigosa Yara. As ilustrações que abrem cada capítulo ficam por conta de Fernando Lopes. A obra é editado pela Rocco. 



História da ressurreição do papagaio, de Eduardo Galeano, com ilustrações de Antonio Santos – O escritor é uruguaio, mas a lenda aqui contada é brasileira. Galeano, em uma de suas visitas ao Brasil, conheceu essa história através de um cordel cantado sobre o surgimento do belo e curioso animal de penas flamejantes que nomeia esse livro. Com beleza poética própria, seu texto, traduzido por Ferreira Gullar, acompanha um papagaio que, distraído, morre ao cair em uma panela quente. A comoção causada por essa morte é tamanha que o oleiro da comunidade tem uma ideia singular para fazer o animal retornar à vida. Uma história sobre finitude, renovação e recriação, História da ressurreição do papagaio ainda é belamente ilustrada pelas figuras em madeira esculpidas e fotografadas por Antonio Santos, que reforçam a poesia e a brasilidade dessa singela lenda nem tão local assim, afinal.



4 contos, de e.e. cummings, com ilustrações de Guazelli – Conhecido pelo experimentalismo principalmente em seus poemas e em sua marca-registrada (o uso de minúsculas, até mesmo em sua assinatura), e.e. cummings é considerado um dos maiores poetas da modernidade. Sua escrita de vanguarda, porém, não se restringiu ao gênero lírico ou mesmo aos leitores mais adultos. Em 4 contos, o leitor é apresentado a um outro autor: aquele que escreveu histórias para sua filha e neto, publicadas em 1965 nessa que é a sua única obra pensada para crianças. Construído como uma pequena antologia que aborda temas universais, o livro é costurado pelas ilustrações em azul, roxo e rosa de Guazelli, que de alguma forma equilibra as histórias sobre um elfo que se depara com um homem que só sabia perguntar “por que”; um elefante e sua peculiar relação com uma borboleta; uma casa que se apaixonou por um pássaro; e uma menina chamada “Eu” que conhece sua sósia chamada “Você”; todas em o que parece ser um mesmo mundo muito colorido e surreal. 


Discurso do urso, de Julio Cortázar, com ilustrações de Emilio Urberuaga – Você provavelmente esperaria encontrar muitas coisas nos canos de um prédio, mas dificilmente uma delas seria um urso. No entanto, nesse conto de Cortázar, esse é justamente o lugar que o seu protagonista (um urso de pelo marrom avermelhado) gosta de estar e perambular noite e dia. Pela voz do curioso animal, o leitor é levado a um passeio por entre as pequenas aventuras que vive ao compartilhar o cotidiano com os diversos moradores do prédio, fazendo barulhos nos canos e lambendo-lhe as faces no amanhecer. Com simplicidade e muitas cores, as ilustrações de Emilio Urburuaga transpiram o dia-a-dia colorido, embora por vezes solitário, dos inquilinos e do urso que os observa, como em uma crônica sobre as vidas de todos nós (e, ao mesmo tempo, de nenhum de nós).



De repente, nas profundezas do bosque, de Amós Oz - Definida pelo próprio autor como uma fábula para todas as idades, a história que Oz conta aqui tem muito da magia e do mistério dos contos de outrora, na linguagem leve própria desse incrível escritor israelense. Em De repente, nas profundezas do bosque, o leitor é apresentado a uma cidadezinha com uma particularidade muito curiosa: nela não há animais de nenhuma sorte. Nem bichos domésticos ou de fazenda, peixes ou insetos, nem uma ave sequer sobrevoa seus céus cercados por um denso e escuro bosque. Aqueles que alegam a existência dessas criaturas quase míticas são tidos como loucos e mentirosos, mesmo que, vez ou outra, alguns adultos deixem escapar aqui e acolá a lembrança dos latidos, miados e ganidos dos animais que conheceram - o que rapidamente tratam de desmentir, é claro. Nem todas as crianças se satisfazem com as explicações dadas para a inexistência dos bichos, no entanto, e serão elas que finalmente desafiarão os pressupostos de sua aldeia em uma aventura enregelante sobre liberdade, independência e a contestação de verdades absolutas. 



O bicho alfabeto, de Paulo Leminski, com ilustrações de Ziraldo – “O bicho alfabeto tem vinte e três patas, ou quase. Por onde ele passa, nascem palavras e frases. Com frases se fazem asas, palavras, o vento leve. O bicho alfabeto passa, fica o que não se escreve” diz o poema de Leminski que inspira a seleção desta obra. Elaborada como uma pequena antologia do autor curitibano, “O bicho alfabeto” não está ligado à ordem dos 23 caracteres que codificam a linguagem verbal, mas muito mais à brincadeira que o próprio poeta fazia com esses. Reunindo haicais e outros poemas curtos, a beleza das palavras de Paulo Leminski se une às ilustrações sagazes e divertidas de outro mestre em sua arte, e com linhas simples e cores fortes Ziraldo “traduz”, à sua maneira, os dizeres de um saudoso poeta, apresentando-o em toda sua leveza a novos ou velhos leitores. 



O paraíso são os outros, de Valter Hugo Mãe e obras de Nino Cais – O título dessa obra talvez seja familiar a leitores de Valter Hugo Mãe, tendo sido primeiramente escrito como a fala de uma personagem em um outro livro do português: “A desumanização”. Em “O paraíso são os outros”, o autor explora os significados do amor através dos olhos de uma menina - principalmente o amor romântico, que, segundo esse curioso eu-lírico, pode acontecer entre pessoas, elefantes, golfinhos, pinguins, gatos e cachorros (embora esses não namorem com muito juízo, ela bem observa). Com muita poesia, o olhar infantil revela nuances sobre esse sentimento que, por vezes, não se fazem tão evidentes aos adultos, de modo que essa prosa em muito encanta e até diverte. As obras de Nino Cais, que mesclam com fotos antigas de casamentos às imagens de cristais e pedras preciosas, são uma leitura à parte, e que merecem atenção: trazem ainda mais possíveis interpretações para a máxima que intitula essa obra e que a permeia por um todo. 



Cinco histórias do Bruxo do Cosme Velho, de Machado de Assis - Há de se achar que Machado de Assis dispensa apresentações, mas então, como apresentá-lo a jovens leitores? Essa pequena antologia de histórias reúne contos, um poema e uma quase-peça que foram publicados em livros, revistas e jornais durante a vida do escritor carioca e que podem ser porta de entrada para novos amantes da escrita inteligente e afiada dele. Aqui, o leitor encontra “Filosofia de um par de botas”, “História comum”, “Ideia de canário”, “O dicionário” e “Niâni” reunidos e acompanhados por um projeto editorial colorido e jovial, mas com a linguagem de sempre desse que, pela magia de suas palavras, ficou conhecido como o Bruxo do Cosme Velho.



A mãe que chovia, de José Luis Peixoto, com ilustrações de Daniel Silvestre da Silva - Delicada como as gotas que gentilmente batem à janela em um dia cinzento, essa é a história de um menino que é filho da chuva. Ele, porém, não é o único que precisa de sua mãe. Sendo a chuva tão necessária em toda parte, precisa vê-la se afastar, ficar muito tempo em sua ausência, sem nunca realmente poder estar junto a ela. Por vezes em torrente, por vezes num pinga-pinga tranquilo, em uma singela prosa poética, José Luís Peixoto fala dessa peculiar relação entre mãe e filho, mas também de sentimentos que não são nada incomuns à condição humana. As ilustrações de Daniel Silvestre da Silva, por sua vez, dialogam com as palavras de Peixoto, e com traços suaves e cores terrosas fazem conhecer mais sobre o mundo íntimo e por vezes tão grande dos personagens dessa história.



Gabrielly Pazetto é graduanda em Letras (Língua Portuguesa e Inglesa) pela Univille, atua como bolsista no Prolij e faz dos livros que lê barcos de viagens inesquecíveis.

Nicole Barcelos é graduanda em Letras na Univille (Língua Portuguesa e Língua Inglesa). Atua como bolsista do Prolij e vive se perdendo em buracos de coelho.
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