No dia 23/09 o Grupo Reinações do PROLIJ esteve em Itapoá encontrando e trocando idéias que semanal e voluntariamente se reúnem para discutir educação. Fomos muito bem recebidos, inclusive, com lanche e presentes!!
Obrigada, Pessoal!
A simpatia foi recíproca e já estamos nos preparando para recebê-los por aqui em uma de nossas reuniões semanais que – por acaso – também acontecem às quartas-feiras à noite.








De algumas histórias não se pode esconder o final ao falar sobre elas. Algumas histórias são feitas para serem contadas, entregadas mesmo aos leitores-ouvintes, sem o risco de afastá-los delas. Pelo contrário. Cada leitor constrói sentidos muito próprios junto ao que lê.
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Conhecia uma só história em que a morte era personagem. Uma história maravilhosa, lindíssima, encantadora. A morte do livro “As intermitências da morte”, do José Saramago. A morte que resolve não matar mais ninguém, e que, com isso, provoca um caos na humanidade. A morte que sente o que é a vida. A morte que se apaixona.
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E agora conheci duas outras histórias nas quais a morte se personaliza. As duas de um escritor alemão, o Wolf Erlbruch, ganhador do prêmio Hans Christian Andersen, em 2006, pelo conjunto da obra.
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Ele é autor de um livro lindíssimo, chamado “A grande questão”, no qual a grande questão que dá nome ao livro é a do por que viemos ao mundo. E ele apresenta respostas das mais finas para isso. Mas não são respostas dele, não. Ele apresenta os dizeres de diversos seres importantes sobre o porquê de estarmos aqui no mundo, como por exemplo: para o passarinho, a grande questão do por que viemos ao mundo é para cantarmos a nossa própria canção. Algo como construirmos nossa própria história. Para o marinheiro, é para navegarmos por todos os mares. Para o jardineiro, viemos ao mundo para aprendermos a ser pacientes. O pato diz não fazer a menor ideia do por que viemos ao mundo. Para a pedra, estamos aqui para estar aqui, somente. E para a morte, estamos aqui “para amar a vida”.
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E a morte que nos diz isso em “A grande questão” reaparece em “O pato, a morte e tulipa”, o outro livro do Wolf Erlbruch. Reaparece para nós, leitores, e aparece, pela primeira vez, para o pato. Aquele mesmo pato do outro livro, sim, que não fazia a menor ideia do por que estava no mundo. E, como a vida mais das vezes toma proporções que nos fogem ao alcance, é este pato quem ensinará à morte o que é, ou pode ser, amar a vida.
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A história da morte, do pato e da tulipa, ou do pato, da morte e da tulipa, como queiram, começa com um pato inquieto, incomodado com algo há algum tempo, e que de repente se depara com a morte ao seu lado. A morte que “tinha um sorriso amigo”, que até era simpática, bem simpática mesmo, “quando não se levava em conta quem ela era”.
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A morte que passa a conviver com o pato por alguns dias. Que passa a sentir o que é, ou pode ser, viver e amar a vida. A morte que entra no lago com o pato, que inverte os papéis com o pato, passando a se sentir ela incomodada, e não ele:
“ – Está com frio? – perguntou o pato. – Posso te esquentar?
Ninguém jamais havia feito a ela uma proposta parecida”.
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E nesse ritmo a morte segue aprendendo coisas boas da vida com o pato. Coisas que não servem pra nada, não. Sentindo justamente que as melhores coisas da vida não devem servir para nada. Como, por exemplo, a sentar-se lado a lado com alguém sem a necessidade de se falar algo. Como, por exemplo, a subir em árvores:
“Às vezes, a morte podia ler pensamentos.
- Quando você estiver morto, o lago também não vai estar mais lá – pelo menos não para você.
- Tem certeza? – perguntou o pato espantado.
- Certeza absoluta – respondeu a morte.
- Menos mal. Então eu não preciso ficar triste por ele quando...
- Quando você estiver morto – disse a morte.
Era fácil para ela falar sobre a morte.
- Vamos descer – pediu o pato depois de alguns instantes – a gente tem cada pensamento estranho em cima das árvores...”.
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Até que um dia o pato sente frio. Um frio incômodo. E pede à morte se ela não quer esquentá-lo um pouco. E a morte fica a olhar para o pato. Esquentando-o com o olhar. Enquanto ele descansa.
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Um descanso que se torna eterno. E a morte, então, carrega o pato no colo até o grande rio. Coloca-o lá, com cuidado, deitado para cima:
“E continuou olhando o fluxo do rio por um bom tempo.
Quando perdeu o pato de vista, por pouco a morte não ficou triste.
Mas assim era a vida”.
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A última linha do breve texto da contra-capa do livro pergunta: “E onde a tulipa entra nesta história?”.
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Pois a tulipa está na mão da morte desde o momento em que ela aparece para o pato. E é ela que a morte coloca sob o peito do pato no momento em que o ajeita nas águas do rio. Uma cena encantadora.

A tulipa amarela representa o amor impossível, ou a luz do sol. A tulipa roxa, a quietude e a paz. Mas é a tulipa vermelha que se faz presente na história. E é a tulipa que simboliza o amor verdadeiro. O amor pela vida, citado pela morte de “A grande questão”. O amor que humaniza a morte nas intermitências escritas pelo Saramago. E o amor que encanta ao aproximar a morte do pato, ao novamente humanizá-la. Ao desnorteá-la em seus afazeres. Ao deixá-la apaixonada. E ao torná-la apaixonante para o leitor.
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Ítalo.
 Por Alencar Schueroff
(Professor do Curso Persona e pesquisador voluntário do PROLIJ)

Pê de Pai é um livro que consegue, com simplicidade de vocabulário e de imagens, tratar de um assunto complexo: relacionamento entre pais e filhos. A escritora Isabel Milhos Martins e o ilustrador Bernardo Carvalho demonstram cumplicidade para contar bem uma história sobre cumplicidade. Uma coisa leva a outra. E o êxito não foi pela quantidade, pois a proposta pode ter sido de economizar nos recursos para dar espaço a sensações passadas (memória) ou atuais. Assim, temos uma obra que se dispõe a ser humana e é.



Créditos: Isabel Martins (texto) e Bernardo Carvalho (ilustração); Editora Planeta Tangerina, 2008.





Por Rodrigo da Silva
Pesquisador voluntário do Prolij - UNIVILLE

Clara é uma menina que tem seus sentimentos confusos, seus problemas com o irmão e com o pai, que lhe deu o apelido de Clarineta por gostar muito de música, fazem com que “Clara ou Clarineta” se sinta confusa diante dos problemas e das relações familiares do dia a dia. Até aqui uma história que poderia envolver e instigar o leitor.
Ao encontrar num caminho uma livraria, Clarineta se depara com dois exemplares, dois manuais, um que a transformaria em Bruxa e o outro em Princesa. Clarineta escolhe transformar-se em bruxa. Transformando o irmão em sapo e o pai em corvo, acha que assim resolveria seus problemas.
Em um trabalho de encher os olhos e não a alma, num projeto gráfico inquestionável, com capa dura, recortes e muitas cores, o livro que pela beleza exterior muitos o escolheriam, traça uma história que parece ir de contra as grandes leituras infantis que buscam no imaginário, no maravilhoso, toda uma atmosfera que propicie a reflexão dentro do mundo mágico da criança. Em Clarineta, bruxa e princesa o leitor é levado para um mundo de arrependimentos e de vantagens momentâneas, a relação do bem e do mal, parece ser travada de forma muito superficial e atual ao mesmo tempo, quando Clarineta resolve se apaixonar por “um príncipe de olhos verdes”, trazendo estereótipos muito comuns aos nossos dias, Clarineta resolve então mudar seu perfil corre e consegue a todo custo o outro livro, feito isso desfaz irmão e pai, prometendo ser boazinha. Mas parece que isso não bastaria a Clarineta, pois seus problemas não se resolveriam por aí...
E, então, fica a pergunta: Por que como “Clara ou Clarineta” desejamos ser o que não somos para conseguir o que queremos? Não que mergulhar no mundo do “fantástico”, do “imaginário” do “irreal”, uso das mesmas palavras que Jaqueline Held usa em sua obra*, seja o problema. O difícil está em aceitar uma literatura que use de um discurso verossímil no qual reflita uma sociedade descartável e que busque os caminhos do não dialogo, da não reflexão e sim de uma transformação que lhe traga para aquele momento, naquela determinada hora o que deseja e o que quer. Onde está a personalidade da criança leitora em desenvolvimento e como será a do adulto que está se deparando com textos que lhe remetem somente ao meio e nunca aos extremos, uma pergunta para uma resposta que o tempo dirá.

*HELD, Jaqueline. O imaginário no poder: as crianças e a literatura fantástica. 1981.

FICHA TÉCNICA:

Obra: Clarineta, bruxa e princesa
Autor: René Gouichoux
Ilustrador: Guillaume Renon
Editora: Dimensão

No livro João e os sete gigantes mortais somos convidados a acompanhar o protagonista na busca por suas origens, numa tentativa de constituição da própria identidade. Durante a viagem, João enfrenta sete gigantes mortais que personalizam os sete pecados capitais. Estes seres míticos representam desafios interiores para João, que tem também em si os pecados que enfrenta. A derrota de cada gigante representa a superação de uma fraqueza e mostra o caminho para a constituição do herói.
A capa do livro apresenta João à sombra de um gigante em posição ameaçadora. João está com as mãos no bolso e parece frágil, à mercê do risco iminente. À frente de João vemos a parte posterior da vaca e seu rabo. De acordo com o dicionário de Simbologia de Manfred Lurker “no hinduísmo, o moribundo agarra um rabo de vaca a fim de ser levado em segurança sobre o rio da morte”. Essa definição aplica-se ao contexto da trama: há uma espécie de pacto entre João e a vaca, pois ela guia o menino, que viaja deitado sobre suas costas.
As cores da capa e contracapa são verde e laranja; elas podem sugerir o amadurecimento do personagem durante a narrativa. O livro tem formato padrão; esse recurso pode ter sido utilizado para inseri-lo no campo dos infanto-juvenis, pois o livro infantil tem tamanho diferenciado.
As ilustrações são de suma importância. Para Sonia Salomão Khéde, a verdadeira relação entre texto e imagem ocorre somente se a ilustração
“(...) Dialogar com o texto em vários níveis e de diversos modos, através de uma interpretação, uma leitura ‘imagística’ do texto. (...) A perspectiva narrativa da ilustração pode levá-la a representar cenas e situações que não estão, inclusive, no texto verbal.”
Em “João e os sete gigantes mortais” há uma ilustração para cada abertura de capítulo. As imagens, criadas por Carll Cneut, são em preto e branco e possibilitam uma leitura aberta e dinâmica, estabelecendo a relação texto-imagem de maneira interessante e subjetiva.
Juliana Amaral
Acadêmica do 2° ano Curso de Letras Licenciatura da Univille
Ítalo Puccini


na quarta passada, no prolij, a sueli leu o livro “para criar passarinhos”, do bartolomeu campos de queirós. é edição nova do livro, feita pela global, agora em 2009, com ilustrações do guto lacaz. coisa mais linda do mundo o livro! de um cuidado extremo, belíssimo!

é um livro de cores e passarinhos. cores vivas, que causam no leitor uma sensação boa, gostosa, alegre. e o texto do bartolomeu é também cheio de vida. há coisas assim lá, ó: “Para bem criar passarinhos é necessário ter o corpo capaz de escutar o silêncio das pedras, o som do vento nas folhas, o ruído de soluços preso em garganta”.

as páginas duplas do livro são compostas, no lado esquerdo, pelo texto, e no lado direito, por figuras geométricas. pequenininhas, em grande quantidade. mas em cada conjunto de figuras geométricas há uma só com um detalhezinho de diferença para as demais. tive que tirar foto disso pra deixar mais claro, tamanha beleza! cada página dupla é de uma cor.

e os textos, ao lado esquerdo, começam sempre assim “Para bem criar passarinho”, e seguem com um dizer do que é preciso ter para criá-los, e do como fazer isso. ó um exemplo: “Para bem criar passarinho é essencial possuir um arco-íris, ilusão de água e sol, rabiscando no céu para passarinho pousar depois da chuva. E isso se faz possível colhendo nas nuvens as sete cores, ao entardecer”.

o livro é de uma delicadeza só. apresenta ao leitor o contato com o nada, com aquilo que não tem um porquê de ser, com algo sem utilidade. lembrou-me muito os livros do maneca, o manoel de barros. quer ver só (pra quem já leu bastante o manoel, há de perceber o mesmo, creio): “Para bem criar passarinho há que se sonhar borboleta, anjo ou estrela cadente. É importante ter imensas intimidades com o nada, admirar o vazio e um especial encantamento pelo azul que existe muito depois das nuvens, infinito adentro”.

para ler o bartolomeu não é preciso saber criar passarinho. é possível aprender, sim, a fazer isso, mas não é imprescindível que se saiba. é necesssário, sim, sentir a leveza do voo das palavras, buscá-las pelos arredores de cada esconderijo, explorar o que elas contém de mais singelo e secreto.


Fim. Essa palavra está no imaginário de muitas pessoas. Foi ela que sempre encerrou os contos clássicos e, até hoje, encerra filmes, romances, histórias populares, etc. Na literatura, geralmente, essa palavra significa o fim da história, o desenlace das intrigas, o desfecho.
Por muito tempo, assim se comportaram as narrativas. Mas a Literatura é viva: sempre em constante movimento. Criam-se novas estruturas, novas linguagens, subvertem-se padrões, até então inabaláveis. O pensamento do homem está sempre se modificando, modernizando-se, e isso traz inúmeras mudanças no modo de se pensar e fazer a arte. A Literatura é viva: eterna metamorfose. Hoje em dia, as boas histórias desafiam cada vez mais seus leitores. O tradicional esquema começo, meio e fim agora convive com muitos outros modelos narrativos. Os exemplos são fartos. Um dos mais oportunos é "História meio ao contrário", de Ana Maria Machado, cujo título já prepara o leitor para uma narrativa diferente, em que surge, logo no início, a clássica frase "(...) e foram felizes para sempre".
Exemplo muito interessante também é o filme "A História Sem Fim", de Wolfgang Petersen. Assim como o livro de Machado atiça o futuro leitor, esse filme traz um título que provoca o futuro espectador, afinal, como pode haver uma história sem fim? Há sim. Aliás, a história que esse filme conta é justamente sobre a Literatura: o casamento, o jogo entre o leitor e o livro. O filme todo é uma grande metáfora para essa relação forte, na qual um não existe sem o outro.
O protagonista é o menino Bastian que, convivendo num ambiente angustiante (um ambiente familiar frágil), se refugia na fantasia para poder, enfim, sonhar. E o instrumento para mergulhar no mundo fantástico é o livro. A história que o menino lê é a saga de outro jovem: Atreyu, menino corajoso que aceita a missão de salvar o seu reino (o reino de Fantasia) do terrível "nada" que o assola. Bastian vai, aos poucos, se identificando com Atreyu: compartilha suas angústias, seus medos, suas alegrias. Luta com ele, pensa com ele. Na verdade, Bastian é Atreyu (e isso é mostrado numa belíssima cena em que um é reflexo do outro). Nessa cena, é curioso o estranhamento que tal constatação causa: Bastian se recusa a acreditar que participa da história. Esse estranhamento é marca da Literatura: ela nos mostra as coisas por outro ângulo e isso, à primeira vista, assusta. Ela nos desnuda: joga luz sobre nossos desejos e medos mais íntimos. Por isso estranhamos e fugimos. Mas não demora muito, e voltamos ao texto, pois nele nos reconhecemos. E Bastian se reconhece na figura de Atreyu. A missão de Atreyu é uma tentativa de resgatar a fantasia que as pessoas insistem em deixar adormecida, permitindo que o "nada" invada o reino - o mundo - e destrua quase tudo. O nada, longe de ser algo concreto,é bem o que sugere seu nome: a ausência de imaginação, da criatividade, do sonho, da esperança. E tudo isso Bastian vai percebendo ao correr as páginas do livro, que lê com cada vez mais vontade, até que chega o momento em que o menino se descobre dentro da história. Ele, o leitor, é quem tem o poder de salvar o reino da fantasia, basta acreditar nisso. E Bastian acredita.
Mais que uma metáfora da relação leitor/livro, o filme é uma defesa pela liberdade. Liberdade para a imaginação; para a fantasia.
A história de Bastian tem, sim, um desfecho. Mas não um fim. Trata-se de um ciclo. Atreyu/Bastian lutou, caminhou para chegar ao mesmo local de partida: a si próprio. Ao longo da missão, Atreyu/Bastian percorre muitas milhas, mas a verdadeira caminhada acontece dentro de sua própria consciência.
Como tantas outras boas histórias, esse filme vem nos lembrar que a literatura -e a arte em geral-, com seu espírito inquieto e questionador, é um veículo sem-igual para as pessoas embarcarem. Lembra-nos que a palavra é capaz de traduzir toda a nossa humanidade. A palavra comporta tudo: o mundo todo.

Eduardo Silveira
Acadêmico do 2° ano Curso de Letras Licenciatura da Univille
A literatura infantil pode e deve ser vista como uma arte, pois representa o mundo através da palavra; pode unir o real e o imaginário, o possível e o impossível.
Os textos literários voltados para o público infantil foram escritos há alguns séculos, e retratam um mundo fantástico, de sonhos e encantamentos. Porém, eles permitem que as crianças vivam, por meio dos contos, situações-problemas e conflitos e, a partir daí, tentem construir conceitos que auxiliarão em sua formação ao longo da vida.
Partindo-se deste pressuposto, o livro João e os Sete Gigantes Mortais, de Sam Swope, chegou para renovar a estrutura dos contos de fadas, pois mostra de uma forma bem divertida, instigante e provocante um herói às avessas.
Desde que João foi abandonado, ainda bebê, carregava a fama de menino mau da aldeia. Sempre estava metido em alguma encrenca ou confusão. E tudo acontecia sem ele querer. E a culpa sempre era sua.
Mas as coisas se complicam quando chega a notícia de que sete gigantes mortais se aproximam do povoado, João leva a culpa e então, resolve partir para que a aldeia fique a salvo. Caminhando sem destino, João encontra pelo caminho um sujeito esquisito que lhe dá de presente um feijão mágico. Um feijão que realiza desejos. O garoto faz então seu pedido de criança solitária: “Quero minha mãe!”. Mas, ao seu lado, surge apenas uma vaca. Desiludido, João segue viagem com sua nova companheira.
Pelo caminho, João acaba enfrentando os gigantes que querem fazer dele um picadinho malpassado, que personificam os sete pecados capitais: O Poeta Gigante (a preguiça), O Terrível Guloso (a gula), Dona Iracúndia (a ira), O Cocegão Selvagem (a luxúria), Avarico (a avareza), Orgulha, a Grande (a vaidade) e a Rainha verde (a soberba). João se mostra, então, corajoso, esperto e muito inteligente. Com astúcia e capacidade de surpreender, o menino consegue vencer os sete gigantes, sem usar força física ou violência, mas o curioso é a forma positiva como o personagem lida com os problemas e obstáculos.
Cheia de humor e irreverência, a narrativa nos transporta a combates divertidos e apavorantes, completada com as ilustrações extraordinárias dos temíveis monstrengos gigantes de Carll Cneut.
É por meio desta trama inusitada e singular que o autor Sam Swope aborda temas fundamentais na formação infantil: amor, autonomia, superação de obstáculos, justiça e solidariedade.
Swope buscou em diversas fontes literárias, tudo o que lhe pudesse render inspiração para tratar de “grandes questões da vida”, foram referências que ganharam uma roupagem original, sempre com muito humor. A história criada por Swope possui um pé nos contos de fadas, simbolizado por elementos dos contos tradicionais (feijões mágicos, rainhas más, maçãs, princesas aprisionadas) e outro em alusões bíblicas.
Podemos associar de alguma forma este João a outros Joões dos contos tradicionais e suas histórias.
O enredo trazido pela história “João e Maria” traduz a realidade de muitas crianças. Os pais pobres, não sabem como poderão cuidar dos filhos e decidem abandoná-los na floresta.
João e Maria tentam encontrar o caminho de casa, vencer uma bruxa que pretende devorá-los são algumas atitudes que eles devem incorporar para conseguirem liberdade.
A trama da história “João e o Pé de Feijão” ocorre num ambiente mágico e ao mesmo tempo real. A mãe de João vendo que a comida e o dinheiro haviam acabado pede ao filho que vá até a cidade para vender a única vaca que tinham e que já não produzia leite. No caminho, João troca a vaca por feijões mágicos.
Aproveitando a sugestão de “João e o Pé de Feijão”, Swope utiliza a vaca como um poderoso símbolo maternal de ternura e afeição.
Dá para notar uma grande semelhança entre este João e o dos gigantes mortais, pois os dois agem com astúcia e coragem ao enfrentar os gigantes. Além disso, os dois Joões levaram um prêmio ao fim da história. Enquanto um ganhou uma harpa mágica e uma galinha que bota ovos de ouro e, com isso, consegue ficar rico, o outro, finalmente encontrou sua mãe e arranjara um lar onde era querido.
O desafio do leitor é encontrar nas entrelinhas outras histórias de gigantes da literatura.
São muitas as costuras feitas por Swope para que as crianças sejam instigadas em sua vivacidade e, ao mesmo tempo, respeitadas em sua integridade – como é o caso do tratamento dado à luxúria, “pecado” que ganhou uma cuidadosa e bem-humorada metáfora.
Em suma, este livro é moderno e original, e suas ilustrações dão o tom do capítulo que virá e estão em completa harmonia com a história, desafiando e estimulando a fantasia do leitor. As ilustrações de Cneut merecem, por si só, a leitura do livro, ainda que o texto seja também de elevada qualidade. Pois seus traços vão dando vida aos personagens deste livro, personagens apavorantes e marcantes, como é o caso dos gigantes e que despertam a capacidade criativa e imaginativa das crianças.

Daiane Silva
Acadêmica 2º ano do Curso de Letras Licenciatura da Univille
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