Quantas vezes em nossas vidas temos que encarar uma selva! Muitas vezes nem precisamos sair de casa para isso: nós “matamos leões” diariamente, temos “problemas do tamanho de um elefante” para resolver, ou ainda temos que “enfrentar os lobos” que aparecem em nossas vidas e dos quais temos duas únicas opções: fugir ou enfrentar.


O livro Os lobos dentro das paredes, escrito por Neil Gaiman, Ilustrado por Dave McKean, editado no Brasil pela Rocco, além de trazer o que é característico no trabalho de ambos, a narrativa carregada de uma aura de mistério, vem sacudir o leitor tanto com palavras carregadas de significações quanto com imagens ricamente trabalhadas.

A história se passa num antigo casarão; nele moram Lucy com seus pais e seu irmão. Um dia ao andar pela casa, ela ouve ruídos abafados e percebe que são lobos vivendo dentro das paredes do casarão. Ao dividir isso com a família é desacreditada, porque todos sabem que “se os lobos saírem de dentro das paredes está tudo acabado”. Um dia, os lobos saíram de dentro das paredes tomando de sobressalto a casa e os objetos da família e eles tiveram que tomar uma decisão: enfrentá-los ou fugir.

O projeto gráfico desse livro é uma beleza a parte. Mckean soube usar brilhantemente as ferramentas de que dispõe, mesclando a plasticidade da tinta e do traço com os recursos da fotografia e dos programas de edição em computador. O resultado desse trabalho são personagens de traços angulares que figuram em um ambiente que nos remete àquele da memória, em que, sob a luz de candeeiros e velas, as sombras sinistras se projetavam nas paredes insistindo em nos assustar.

O texto verbal é inserido sobre as ilustrações e recebe fontes tipográficas diferenciadas em cada bloco, conferindo uma imagem textual de acordo com a sonoridade e a movimentação da cena narrativa.

As cores empregadas pelo ilustrador reforçam a aura de mistério da história, de algo que nos incomoda, por não estarmos acostumados a enfrentar e que muitas vezes preferimos deixar guardado dentro das paredes, mas nem sempre isso é possível.


Gaiman, Neil. MCKEAN, Dave. Os lobos dentro das paredes. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.




Maria Lúcia Costa Rodrigues.

Mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade e pesquisadora voluntária do PROLIJ – UNIVILLE.

Contando até dez e utilizando brincadeiras com jogos poéticos e imagens, o livro Numerália – poemas para contar – de Jorge Luján, com ilustrações caprichadas de Isol, edições SM, apresenta variadas situações envolvendo os números em campos simbólicos e imaginários muito divertidos.

Um dos seus aspectos mais curiosos e interessantes, diz respeito ao uso das possibilidades que o desenho dos números pode oferecer, estimulando a imaginação com o desenho de seus traços que, ao mesmo tempo em que representam numericamente, quantificam seus elementos. A apresentação a partir de jogos poéticos traz em seu diálogo com as ilustrações referências do universo infantil e de leitura ampliada para leitores de qualquer idade, num misto perfeito de matemática e boa literatura. Que tal? Vamos ler, contar e poetar?



Por Cleber Fabiano da Silva.
Pesquisador voluntário do PROLIJ - UNIVILLE
 
 
FICHA TÉCNICA:


Numerália – poema para contar
Autor: Jorge Luján
Ilustração: Isol
Tradução: Rodrigo Villela
Editora: Edições SM

Esta é a história de um menino que “tinha um jeito especial de não pensar nas coisas”, de não ter desejos; possuía feridas avermelhadas nas pernas que coçavam sem parar. Sabia entalhar em madeira, era “craque em não chorar” e a chuva não o incomodava. Uma história de encontros: do menino com uma criatura selvagem, cujo brilho mais parecia um “sol nascente”. Do menino com uma menina de nariz pontudo, olhos pequenos, pernas finas e postura desafiadora que tem o mesmo nome da capela, Sistina.

Ele trazia a tristeza dentro de si, ela a raiva, juntos tornaram-se uma ilha no mar de seus sentimentos. A obra de Kate DiCamillo, com tradução de Valter Lellis Siqueira, editora Martins Fontes, 2006, com convidativa e instigante ilustração da capa de Chris Sheban consiste em uma narrativa sensível, texto poético e um mapa da condição humana. “É um copo d’água num dia de calor.”

Por Anderson Duarte

Estudante de Letras


FICHA TÉCNICA


Livro: O Tigre
Título original: The Tiger Rising
Autora: Kate DiCamillo
Tradução: Valter Lellis Siqueira
Editora: Martins Fontes
Ano: 2006

O livro é simples, com enredo e linguagem acessíveis a quase todo tipo de leitor. Porém, com uma reflexão mais aprofundada, podem surgir perguntas, como: Qual a relação entre o cinzento e o encarnado? Por que há frases do tipo “É perto do meio dia, dizem as sombras”? Respondendo de forma paradoxalmente objetiva, dir-se-ia que isso é o que chamamos de Literatura. As coisas ditas e, ao mesmo tempo, não ditas, que agitam nossa alma.
A história trata da vida sofrida de Rosálio e Irene. Ele, um pedreiro analfabeto que carrega consigo uma caixa de madeira, cheia de livros. Ela, uma prostituta doente em fim de carreira. A fusão entre o cimento e a guará vermelha ferida vai dando origem a uma explosão de cores que toma conta da vida tão incolor de ambos. Eles interagem e se complementam, à medida que Rosálio aprende as primeiras letras com Irene que, em contrapartida, ouve maravilhada a fantástica história da vida dele: “conta para eu sonhar”, ela pede.
E completando esse poético escambo, Irene ainda acumula mais duas funções: lê para seu companheiro os livros da caixa e coloca no papel as lindas narrativas auto-biográficas que ele conta. Pensando bem, tudo isso parece ser uma só coisa, até porque “a vida mistura tudo e quem quiser separar não vive nada que valha”.
A citação acima evidencia o destaque do livro: a musicalidade. As palavras são minuciosamente escolhidas e colocadas, fazendo com que a gente sinta vontade, em vários momentos, de ler em voz alta.

Autora: Maria Valéria Rezende
Título: O Vôo da Guará Vermelha
Editora: Alfaguara
Número de Páginas: 184

Alencar Schueroff - Professor do Persona e pesquisador voluntário do PROLIJ.
A leitura em voz alta, aparentemente, traz enormes benefícios cognitivos, relacionais e sociais às crianças... Mas não só. Para os adultos é mais relaxante que uma massagem.

Que os organizadores do prêmio “Nati per leggere” (nascidos para ler), dedicado à leitura em voz alta para crianças, não me queiram mal, mas pessoalmente, e talvez para todos os nostálgicos over trinta, a verdadeira notícia é que (respirem fundo)...enfim: a Pimpa ... a Pimpa é viva! Abandonados, há muito tempo, os campos elíseos do “Corriere dei Piccoli” , encontrei-a exuberante e vivaz, em plena forma e como sempre manchadinha, entre páginas pop e capas mirabolantes, na seção de 0-6 anos de uma livraria de Milão. Se, além disso considerarmos que Le Petit Prince saiu em versão pop-up (que significa que folheando o livro, a raposa, a rosa, o pequeno principe saem literalmente do livro e é possível mexer os personagens que colonizaram o nosso imaginário infantil), é fácil entender que, de hoje em diante, a seção 0-6 anos de todas as livrarias não serão mais frequentadas somente por uma clientela de fraldas ou de macacão.

O problema, então, será como justificar a presença de vocês na livraria e, em casa, a da Pimpa (ou de qualquer novo herói da editoria infantil) em cima do criado mudo. Impossível esconder o tão amado livro entre as páginas de um seríssimo Houellebecq, porque os formatos não são compatíveis.

Existe uma única solução: precisa-se de uma criança. É o melhor caminho. O mais saudável, para vocês e para ele. Giorgio Tamburlini, presidente do Centro para a Saúde da Criança (que deu vida ao projeto “Nati per leggere” há dez anos), enfatiza como a leitura em voz alta traz enormes benefícios cognitivos, relacionais e sociais às crianças. Enquanto aos adultos traz benefícios totalmente emotivos, que podem ser medidos em termos de entusiasmo. Enfim, acreditando que se está fazendo bem a um pequeno, o resultado não será somente que vocês voltarão a ler a tão amada Pimpa (ou um seu substituto), mas que sentirão os efeitos benéficos que nem um mês de spa ou um quilo de chocolate amargo anti-depressivo poderia dar.

Palavras que embalam

Mas não é tudo: façam gargarejo e armem-se da voz certa, para tirar o contador de histórias que há dentro de vocês. É esse o ponto. O prêmio “Nati per leggere” estimula a produção de projetos ligados à leitura
para crianças. Mas o nó crucial é sempre o mesmo: vocês, contadores de histórias. A voz é história velha, arquetípica e primordial. Vinda antes da palavra, comunica com andamento prosódico e não verbal. As emoções saem com a simples emissão. E isto as crianças sabem bem. Como afirma Rita Valentino Merletti (autora de “Leggimi forte”), pode-se recitar até um canto do divino poeta, nada importa se para um público em fraldas. A equação é simples: se declamarem alguma coisa que agrada a vocês mesmos, transformarão as palavras em sons que embalam e o ouvinte entenderá, essencialmente, a vontade de entrar em contato com ele numa relação privilegiada.

Quase como se chegando ao teatro, vocês encontrassem um Benigni esperando para fazer um espetáculo em sua honra. Nada mau, hem? Tamburlini explica com um claim de efeito: ama ler porque te ama.

Se a primeira regra é encontrar alguma coisa que vocês também gostem (o ponto de partida, é importante lembrar, é a Pimpa), a segunda é encontrar a voz certa, diz Merletti. Não deve-se trair com vozes pouco autênticas. Há quem escavando a própria voz para fazer-se contador de história, acabou por mudar a própria vida, além de Winnie the Pooh e amigos.

Enfim, seguindo Rodari, apostem na criatividade. Voltem, conversem, coloquem onomatopéias e provem truques de malabarismo e efeitos sonoros no final surpresa, preparem-se em um instante e improvisem-se um Altam ou grandes atores.

E se é verdade que as crianças às quais contaram histórias em voz alta, quando adultas amarão mais os livros, trinta e cinco anos depois, como eu, desejarão voltar à Pimpa (porque a Pimpa ainda existirá, tenho certeza)? E se é tudo um retroceder, podemos esperar encontrar alguém que torne a lê-las para nós como nos dias que foram?

Muitas incógnitas para nós velhas crianças. Certo é que tudo parte da escolha de um bom livro para crianças. Então, nos vemos em Turim.




Promover a leitura das crianças



• Na sua primeira edição, “Nati per leggere” é promovido pela região Piemonte e pelo Salão do Livro de Turim. É aberto a editores, pediatras, bibliotecários, educadores. Premia os melhores livros , projetos editoriais e de promoção da leitura para crianças em idade pré-escolar. Informações: www.natiperleggere.it



• O Centro para a Saúde da Criança é uma Onlus fundada por um grupo de profissionais que operam no campo da saúde infantil. É ponto de referência para atividades de pesquisa, formação e promoção da saúde da criança, da sua concepção à adolescência.Algumas iniciativas: Nati per leggere, Nati per la musica, Fin da piccoli. www.csbonlus.org



Tradução: Geórgia de Souza Cagneti

Prolijiana correspondente (Itália)
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¹ Pimpa: personagem de histórias em quadrinhos de Tullio Altan, nascida em 1974. Hoje é também personagem de livros infantis e desenhos animados.
²Corriere dei Piccoli: caderno infantil do Corriera della Sera (até hoje um dos mais importantes jornais italianos), que publicava histórias da Pimpa, mas que deixou de ser publicado.

O PRÊMIO
A vida é uma contínua força que nos traz crescimento e mudança, onde para atingirmos, uma certa estabilidade psíquica muitos anos são necessários, muitas pontes precisam ser construídas e experimentadas.


No livro O gato e o escuro do moçambicano Mia Couto (2008), pode-se perceber a presença contextualizada de tais necessidades.


O medo do escuro é experimentado por Pintalgato, um gato filhote que a principio se mantém contido, querendo descobrir o que se esconde além da fronteira do dia com a noite e que está preso ao medo do desconhecido. Aos poucos ele se rende ao escuro tornando-se tão negro quanto Ébano.


Uma história que nos mostra a importância da mediação materna, da solidariedade e do sentimento de confiança. E de que muitas vezes, “nós é que enchemos o escuro com nossos medos” e que o escuro pode se construir dentro de nós, pelos conceitos que estabelecemos através de nossas interações com o mundo. Levando em conta que os medos não devem nos afastar das descobertas e do prazer de viver e mais do que tudo, de que é necessário sim experimentar, mesmo que isto implique sofrer.


As ilustrações de Marilda Castanha nos remetem a traços indígenas e africanos, mostrando a beleza do que pode ser tão primitivo quanto o próprio medo, desvendando certezas e incertezas.


O gato e o escuro de Mia Couto, vale a pena experimentar sem medo.



Livro: O gato e o escuro
Autor: Mia Couto
Ilustrações: Marilda Castanha
Editora: Companhia das Letrinhas
São Paulo, 2008


 
Andréa de Oliveira
Mestranda em Patrimônio Cultural e Sociedade
Pesquisadora Voluntária do Prolij

 



Pela primeira vez na história do Prêmio Hans Christian Andersen - HCA, criado pelo International Board on Books for Young People – IBBY, dois brasileiros são selecionados como finalistas.

A Fundação Nacional do Livro Infantil e juvenil – FNLIJ, seção brasileira do IBBY, indica, de dois em dois anos, um escritor e um ilustrador para concorrer ao Prêmio. Para a edição de 2010 do HCA, a FNLIJ indicou o escritor Bartolomeu Campos de Queirós e o ilustrador Roger Mello.

A concessão deste prêmio é considerada a distinção máxima internacional dada a um escritor e a um ilustrador vivo cuja obra represente grande contribuição para a literatura infantil. Dentre os 55 candidatos que foram indicados pelas seções nacionais do IBBY, o júri selecionou cinco candidatos finalistas nas categorias escritor e ilustrador. Os vencedores em cada categoria serão anunciados no dia 23 de março, durante a Conferência de Imprensa do IBBY, na Feira de Bolonha, Itália.


Escritores Finalistas

- Ahmad Reza Ahmadi (Irã)
- Bartolomeu Campos de Queiros (Brasil)
- David Almond (Reino Unido)
- Lennart Hellsing (Suécia)
- Louis Jensen (Dinamarca)

Ilustradores Finalistas:

- Carll Cneut (Bélgica)
- Etienne Delessert (Suíça)
- Jutta Bauer (Alemanha)
- Roger Mello (Brasil)
- Svjetlan Junakovic (Croácia)

Os dez membros do júri de 2010, presidido por Zohreh Ghaeni (Irã) foram: Ernest Bond (EUA), Karen Coeman (México), Nadia EL Kholy (Egito), María Jesús Gil (Espanha), Jan Hansson (Suécia), Annemie Leysen (Bélgica), Darja Mezi-Leskovar (Eslovênia), Alicia Salvi (Argentina), Helene Schär (Suíça) e Regina Zilberman (Brasil). Elda Nogueira (Brasil) representou a presidente do IBBY, Patsy Aldana e Liz Page atuou como secretária do júri.

O Brasil já recebeu duas vezes este prêmio com as escritoras Lygia Bojunga (1982) e Ana Maria Machado (2000) e ainda teve como finalista os escritores Joel Rufino dos Santos (2004) e Bartolomeu Campos de Queirós (2008).

Para a FNLIJ é um orgulho ver suas indicações de importantes nomes da Literatura Brasileira Infantil e Juvenil recebendo o reconhecimento do seu trabalho. A qualidade dos livros para crianças e jovens produzidos em nosso país já é destaque no mundo e a cada ano tem ganhado mais espaço. Parabéns a escritores, ilustradores, editores e promotores que acreditam e apostam no livro e na leitura.


Parabéns aos nossos queridos Bartolomeu e Roger.


Mais informações acesse o site www.ibby.org.







Mais do que oportunizar a leitura literária, mais do que sensibilizar, torna-se necessário o exercício em busca da competência leitora. “Não basta apenas ler. É preciso aprender a ler além das fronteiras do código”. Nesse intuito, Literatura Infantil e Juvenil: suas possibilidades de leitura em sala de aula da Prof. Dra. Sueli de Souza Cagneti, editora Letras Brasileiras, 2009, traz uma série de discussões significativas acerca da formação do leitor competente.

O livro começa com conceitos sobre a arte da Literatura e prossegue com uma metodologia que apresenta aos promotores de leitura, mais precisamente aos estudantes e aos professores, “olhares que multiplicam”, ou seja, discutir a mesma temática ampliando o modo de ver do leitor para infinitas possibilidades a partir da proposta de leitura contrastiva. Nesse momento, a autora apresenta diversos quadros nos quais a mudança de tempo, espaço e contexto mudam e ampliam o horizonte de perspectivas de quem lê.

Outro aspecto abordado pela professora autora diz respeito aos diferentes modos de abordar a literatura para crianças e jovens e, principalmente, como enriquecê-la. Enfim, um livro de muitas ideias que, ao entrar em contato com o repertório do leitor-professor-estudante, cumprirá com sua clara intenção já presente no título da obra.


Por Cleber Fabiano da Silva.

Pesquisador voluntário do PROLIJ - UNIVILLE


Livro: Literatura Infantil e Juvenil: suas possibilidades de leitura em sala de aula

Autora: Sueli de Souza Cagneti

Editora: Letras Brasileiras

Ano: 2009


Honrar a pátria, a sociedade e o título que recebeu. Essas são apenas algumas das obrigações do herói ao anunciar sua aceitação ao status de representante e redentor. O caminho percorrido pelo herói, mito ou santidade é a análise proposta por Joseph Campbell em sua obra O herói de mil faces (Ed. Pensamento, SP, 2007). Diferentes períodos e civilizações da história da humanidade nos deixaram como heranças mitos, lendas e contos que ilustram suas vivências, superações e expectativas. Experiências que, reais ou não, convivem cotidianamente (de forma espectra) com populações ocidentais e orientais do mundo contemporâneo. O que faz com que um mito sobreviva por tanto tempo? Por que os heróis e seus feitos ainda nos provocam a sensação de medo e euforia? O autor recorre aos rituais para nos esclarecer e aproximar das histórias que ouvimos, lemos e, incrivelmente, nos identificamos. É através de uma série de ritos que entramos num novo mundo, numa nova realidade. Renascemos a cada porta aberta, a cada aceitação de convite que a vida nos proporciona. Ser herói é perceber o desconhecido e enfrentar novas realidades. Aquele que concordar com os trajetos oferecidos terá que enfrentar dois grandes momentos definidos por Campbell como separação e transfiguração que são, respectivamente, o deixar algo que lhe traz segurança (o autor faz referência à simbologia do útero materno) e a transformação da batalha vencida em satisfação a um grupo ou sociedade. Não seriam essas as raízes de nossos medos de sermos heróis? Somos cobrados diariamente por nossas conquistas e castrados por nossos fracassos. Vivenciar a experiência do herói é, acima de tudo, enfrentar arquétipos, superar perdas e ter domínio da situação enfrentada. É preciso sair do lugar comum e fazer a passagem pelo limiar, alimentando a possibilidade de uma jornada homérica ou quixotesca. O herói deve se livrar do interior da baleia (mais uma vez a segurança) e se lançar aos braços das possibilidades, ainda que seja uma queda sem rede. Campbell, definitivamente, nos faz crer e entender o papel dos mitos, contos e lendas nos dias atuais.

Livro: O herói de mil faces
Autor: Joseph Campbell
Tradução: Adail Ubirajara Sobral
Editora: Pensamento
Número de Páginas: 414
Ano de Publicação: 2007

Silvio Leandro da Silva
Pesquisador Voluntário do Prolij
“Contar histórias multiplica a gente”. Este foi o tema do “Abril Mundo 2009”, evento organizado anualmente, desde 2005, pelo PROLIJ, Programa Institucional de Literatura Infantil e Juvenil, da Univille, com o desejo maior de colocar no centro da discussão, acadêmica e social, o que é e o que está sendo a Literatura Infantil e Juvenil, nacional e internacionalmente.

O tema do evento deste ano, que deu início a este texto, teve como objetivo colocar em discussão a milenar arte de contar histórias. Isto porque o ato de contar histórias faz parte da história da evolução do homem. Isto porque contar histórias, todos contamos. E, ao contarmos histórias, contamos a nós mesmos.

Sueli Cagneti, coordenadora do PROLIJ, no seu mais recente livro publicado, “Literatura Infantil e Juvenil: suas possibilidades de leitura em sala de aula” (Letras Brasileiras, Coleção Letra Viva, 2009), apresenta ao leitor algumas linhas que dão conta dessa representatividade da história na vida humana. Escreve ela assim: “A história é inerente ao homem. Temos necessidade de contar, contando-nos. Da mesma forma que, ao ouvir narrativas, nos ouvimos. Nada tão humano quanto a literatura para aproximar o homem do homem”.

Uma frase final que abraça todas as frases anteriores. A força da literatura reside nisso, na condição de ser humano que ela desperta nos sujeitos.

A narrativa é inerente ao ser humano. Queremos, sempre, contar histórias nossas, fazermo-nos ouvir perante os outros. Assim como queremos, sempre, ouvir histórias contadas por estes outros. A vida são histórias. Conhecer histórias é viver. Um cruzamento de histórias. Costuras de vida. Uma palavra é um entrelaçamento de letras. Uma história é um entrelaçamento de palavras. E sentires.

A literatura é apenas um dos meios que utilizamos para nos contarmos e para conhecermos mais a nós mesmos por intermédio de personagens aos quais, como leitores que somos, damos vida.


Ítalo Puccini*
* Escritor e Professor de literatura
Por Ítalo Puccini



(...) porém a parte mais rica do que o Bugre me deixou era coisa diferente, riqueza que só se guarda por meio de repartir porque história a gente esquece se não contar a ninguém (O voo da guará vermelha, p. 59).



Já escrevi aqui, alguns posts abaixo, sobre os contos da escritora e contadora de “causos” Maria Valéria Rezende, a quem tive o prazer de ver e de ouvir, há duas semanas, no Abril Mundo, o evento organizado pelo Prolij. Naquela oportunidade, a autora viera para falar sobre literatura, sobre narrar, escrever e contar histórias. E também sobre seu romance O voo da guará vermelha (Objetiva, 2005).

Voltei ao livro durante esta semana, relendo alguns trechos destacados na primeira leitura que fiz. Trechos como este, por exemplo: Das fomes e vontades do corpo há muitos jeitos de se cuidar porque, desde sempre, quase todo viver é isso, mas agora, crescentemente, é uma fome de alma que aperreia Rosálio, lá dentro, fome de palavras, de sentimentos e de gentes, fome que é assim uma sozinhes inteira, um escuro no oco do peito, uma cegueira de olhos abertos e vendo tudo o que há para ver aqui (...). São as linhas que abrem o livro. São trechos lindamente ritmados. Frases que calam fundo: Quem tem saudade tem na vida uma riqueza.

A história entre Rosálio e Irene trata de necessidades afetivas e de suas possíveis superações. Ele, um pedreiro, carregador de livros e de um desejo, o de aprender a ler os livros que carrega. Ela, uma prostituta presa a um amor que deixa saudade, dor e culpa. Meio que ao acaso eles se encontram. E se completam. Com Irene, Rosálio aprende a ler da forma mais bela e digna que é aprender: ensinando. E Irene, com Rosálio, vive finalmente o tão sonhado amor. Rosálio, ao buscar a palavra, busca a sua consciência e, ao encontrar as letras com as quais pode ler o seu nome, sai do estado de cinza/inconsciência para a luz que se descortina num arco-íris de cores da consciência. Homem e mulher que se fazem um na linguagem e no texto. No corpo e na cama, na vida e na morte. Unem-se na e pela linguagem para não se deixarem esquecer do que e de quem são: o amor é como menino que não sabe fazer contas nem de perda nem de ganho, vive desacautelado, não tem lei, não tem juízo, não se explica nem se entende, é charada e susto, mistério.

A narrativa de O vôo da guará vermelha mistura elementos da cultura popular — especialmente da literatura de cordel e de oralidades — com textos clássicos tais como D. Quixote e As mil e uma noites. Os capítulos têm nomes de cores que remetem ao conteúdo da história (cinzento e encarnado; verde e negro; ocre e rosa). A descrição alterna passado e presente com encadeamento perfeito. Maria Valéria Rezende, de modo brilhante, apresenta um Brasil ainda desconhecido para muitos, visto somente pela televisão, onde, apesar das diversas agruras (analfabetismo, doenças e escravidão moderna) nascem histórias densas e humanas que nos fazem pensar a realidade de forma solidária, e que nos dão a esperança de possíveis e belos vôos de guarás vermelhas: (...) felicidade é coisa de muita delicadeza, que num sol forte demais murcha e perde a boniteza.

A leitura de O Vôo da Guará Vermelha também provoca algumas reflexões sobre a vocação da literatura brasileira, que é, no limite, a responsabilidade solidária diante de uma multidão de deserdados. Ou seja, “dar voz aos oprimidos”. E isto a autora faz brilhantemente. Um exemplo está em quando Irene diz a Rosálio: Ai, Rosálio, se eu soubesse, há muitos anos atrás, que um homem assim existia, capaz de fazer com a fala um mundo maior que o meu, um mundo cheio de histórias de sorrir e de chorar, que me tirasse das sombras do medo de me acabar sem mesmo ter começado a viver vida que preste, que fizesse o amarelho, o azul, o verde, o rosado expulsar a cor de cinza desta alma que eu carrego como uma barra de chumbo.

E, para não me alongar mais ainda neste escrito, ficam as últimas duas linhas e meias deste livro que merece muito mais do que duas leituras: (...), se a vida tem começo, eu penso que nunca finda e a história que já passou, deveras acontecida, a gente lembra inventando. Inventação não tem fim.
Por Ítalo Puccini




A imaginação – como a inteligência ou a sensibilidade – cultiva-se ou se atrofia. (HELD, 1980, p. 14)

Para quem já leu os contos de Marina Colasanti nos livros “Doze reis e a moça no labirinto do vento”, “Uma ideia toda azul”, e “Longe como o meu querer”, por exemplo, pode estar acostumado ao estilo cuidadoso e aos elementos fantásticos que permeiam a narrativa desta autora. E agora, nos dois novos livros lançados por ela, ambos editados pela Global, com capas e formatos semelhantes, encontrarão novamente contos narrados com precisão e repletos do que há de maravilhoso no imaginário da contação de histórias.

“do seu coração partido” (assim mesmo, com letra minúscula) é um dos dois livros que a autora lançou no final do ano passado. Um livro com doze contos, com doze narrativas-poéticas em que a realidade é apresentada em suas facetas mais deslumbrantes e místicas. Em suas dualidades: amor e morte, encontro e desencontro, angústia e plenitude.

Os contos ainda são apresentados com algumas imagens em tons fracos, delicados, e os títulos de cada conto tomam conta de uma página toda. Um livro cuidadoso em seu formato. Um livro feito pensando no leitor, afinal, conforme Cagneti (2009, p. 34) deixa claro, “Ler um livro, hoje, principalmente em se tratando de infantil ou juvenil, é lê-lo em seu todo: capa, quarta capa, cores, ilustrações, diagramação, enfim, todo o projeto editorial. Muito há para ser lido em cada um desses aspectos que compõem a obra”.

Ler os contos de Marina Colasanti exige muita atenção. Um olhar de leitor entrelinha, e uma capacidade de se admirar com o inesperado, pois, como bem está escrito na última linha da contracapa do livro, “não cabe à razão operar histórias que escapam às fronteiras do possível”. E os contos de Marina Colasanti levam a isto mesmo, a senti-los pela emoção de lê-los, longe, longe da razão e de suas possibilidades.

Diante disso que a frase que serve de epígrafe para este texto tem muito do que os contos desta autora oferecem aos leitores, um cultivar da imaginação, da inteligência e da sensibilidade. Não de uma imaginação alienada do que há de real, mas sim de uma imaginação que contribui para a leitura deste real vivido pelo leitor. Algo citado, por exemplo, por Jacqueline Held, em seu livro “O imaginário no poder: as crianças e a literatura fantástica” (1980, p. 28), quando a autora lança a seguinte indagação: “O que é que vivifica o fantástico e vem lhe dar sua verdadeira densidade, senão a simples vida cotidiana, com seus problemas, sua comicidade, seus ridículos, sua mistura íntima de cuidados, de angústia, de pitoresco, de ternura?”

É um pouco de tudo isso que a contista Marina Colasanti oferece aos seus leitores. Um repensar a realidade por intermédio de narrativas que lidam com o fantástico e com o imaginário de cada um. Um pouco-muito do que o estudioso francês Daniel Pennac (1993, p. 19) afirma, que “(...) a virtude paradoxal da leitura que é nos abstrair do mundo para lhe emprestar um sentido”.

Não costumo fazer isso, mas, para quem ainda não leu nada de Marina Colasanti, faça o quanto antes, por tudo o que foi escrito aqui, e por muito do que cada leitor pode acrescentar àquelas histórias. Porém, é necessário lê-la preparado para receber histórias “de coração partido” e de muito além da compreensão.



Referências bibliográficas:



COLASANTI, Marina. do seu coração partido. [ilustrações da autora]. São Paulo: Global, 2009.



HELD, Jacqueline. O imaginário no poder: as crianças e a literatura fantástica. [tradução de Carlos Rizzi; direção da coleção de Fanny Abramovich]. São Paulo: Summus, 1980.



PENNAC, Daniel. Como um romance. Tradução de Leny Werneck. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 1993.

   Sara Louise Bradshaw está passando pela fase mais turbulenta e cheia de transformações: a adolescência. Sua história é contada em Duas vidas, dois destinos, escrito por Katherine Paterson e tradução de Ana Maria Machado.

   Louise é alguns segundos mais velha que sua irmã gêmea Caroline. Pelo fato de sua irmã ter nascido com a saúde mais fragilizada, seus pais e avó davam muita atenção à ela, o que fez com que Louise acreditasse que Caroline era mais amada. Ela se sentia desprezada por todos à sua volta, sua irmã era o centro das atenções em casa, na escola, na ilha em que moravam. E enquanto Louise ajudava a trazer dinheiro para casa pescando caranguejos e siris com seu amigo Call – fonte de renda dos moradores da ilha Rass no leste dos Estados Unidos, Caroline era admirada pelo seu talento para a música. A princípio, Louise tinha orgulho de sua irmã, mas o orgulho foi transformando-se em raiva. Essa raiva tornou proporções maiores, passando a ser ódio. “Jacó eu amei, mas Esaú eu odiei” resume o drama da gêmea mais velha que, por na verdade ser a mais forte, acaba sendo a mais desprezada.

   As transformações pelas quais Louise passa durante a mudança para a vida adulta e a busca pelo seu lugar no mundo são belas e magicamente contadas nessa obra vencedora da medalha John Newbery em 1981, premiada em 2006 com o prêmio Astrid Lindgreen, e merecidamente agraciada em 1998 com a medalha Hans Christian Andersen. Impossível não se emocionar com tais personagens e história tão densa, profunda e envolvente como essa.



Débora Raquel Wanke – Acadêmica de Letras e pesquisadora voluntária do PROLIJ.

"Pegue uma lupa, meu filho, e venha ver o livro que comprei pra você!"

É assim que "Castelos", do inglês Colin Thompson, aborda os leitores. Com status de livro de arte, esta refinada amostra surrealista de capa dura, em formato A3, lançada pela Brinque-Book, faz com que suas ilustrações de folha dupla revelem vários "Jardim das Delícias", como os da obra do pintor belga Hieronymus Bosch.

Mas afinal de contas, o que é "Castelos"? Se julgarmos pelo título, não nos apresentará nenhum relação literária reveladora. É apenas um título, como o nosso primeiro nome. Muitas vezes não nos desvenda por completo, nem ao menos dá vazão a interpretações.

Já nas primeiras páginas, o autor propõe um desafio ao leitor afim de que ele identifique nas ilustrações certos elementos em comum. À primeira vista parece que um jogo de tabuleiro está prestes a ser armado; mas não, a leitura continua.

Esse excesso de meios apocalípticos vira um jogo de cores e riquíssimas informações visuais que, como em toda obra surrealista, aguça a percepção de detalhes.

Cada Castelo recebe uma definição em forma de textos puramente coadjuvantes, sem entrelinhas. O intertexto ocorre mesmo, dentro da figura.

Ao leitor cabe criar uma ponte - que seja bem firme! - entre a riqueza visual  proposta pela obra e seus textos coloquiais.

Quem dera termos mil olhos para enxergar as minúncias deste "Jardim das Delícias".


Charlotte Pires - Pesquisadora Voluntária do PROLIJ.

Ficha Técnica:
Autor/Ilustrador: Colin Thompson
Brinque-Book
Nº de páginas: 32
Publicação: 2005

Sueli de Souza Cagneti
Coordenadora do PROLIJ - Programa Institucional de Literatura Infantil e Juvenil - UNIVILLE

   Falar sobre Lobato - por mais que tenha sido dito a respeito dele e de suas obras - é sempre oportuno. Desta vez foi Luciana Sandroni. E como o fez bem! Dando a palavra às duas personagens mais criativamente construídas por Lobato (e que melhor retratam seus projetos e suas crenças) ela deixa a meninada em contato com a biografia lobatiana, de forma descontraída, brincalhona e, ao mesmo tempo, extremamente didática.
   Lembrando Memórias de Emília - uma das melhores obras infantis do criador do Sítio do Pica-pau Amarelo, na qual Emília conta toda a sorte de peripécias, como sendo suas memórias "vividas e as que gostaria de ter vivido", Luciana coloca-nos, adultos e crianças, em contato com a figura do escritor, do homem público e do cidadão José Bento Monteiro Lobato.
   Numa atitude própria do proceder pós-moderno, Sandroni, remetendo seu leitor a Memórias de Emília e fazendo uso da fórmula travessa e atravessada da boneca ao contar suas memórias, coloca-a a contar, desta vez, as do seu criador, intercalando fatos biográficos pesquisados e escritos por Visconde com peripécias suas e com desejos e enxergamentes seus, em relação ao biografado. Além disso, numa exploração máxima da criticidade de Emília, o livro traça contraponto interessante entre fatos concretos, levantados por Visconde em relação ao contexto histórico vivido por Lobato e a não aceitação dos valores inseridos por ele, à luz da contemporaneidade. Este contraponto - vale dizer - já se faz, como pano de fundo, através do embate travado entre o saber erudito (Visconde) e a criação irreverente (Emília). Sem dúvida, o ponto alto do texto.
   Minhas memórias de Lobato: contadas por EMÍLIA, MARQUESA DE RABICÓ e pelo Visconde de Sabugosa é livro para todas as idades: para crianças, que merecem saber que Lobato existe e querer lê-lo e ler Emília; para os jovens que já o leram, mas que talvez não tenham noção de sua figura humana e cidadã; para os adultos, filhos ou neto de Lobato ( lembrando a tese de Whitaker Penteado ), para exercitar a memória. De forma, aliás, prazerosa, porque lúdica e criatica como o foram suas entradas pelo Sítio do Pica-pau Amarelo.
   Merece registro, ainda, a ilustração de Laerte, que nos devolve um pouco do Sítio e de seus personagens.

SANDRONI, Luciana. Minhas memórias de Lobato; contadas por EMÍLIA, MARQUESA DE RABICÓ e pelo Visconde de Sabugosa. São Paulo: Cia das Letrinhas, 1997, 96p., R$ 16,50.


OBS: Publicado originalmente em: Leitura: Teoria e Prática - Revista Semestral da Associação de Leitura do Brasil - Ano 17 - Dez/98/ nº 32, p. 72.
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