Por Sonia Regina Reis Pegoretti

        As mulheres são o foco desses seis mitos recontados pelo povo iorubano e afro-brasileiro. Segundo Kiusam de Oliveira, autora do livro Omo Oba – histórias de princesas, “Oduduwá criou a o planeta Terra e, se uma mulher teve esta capacidade, o poder está com ela” (p 7). Nesses mitos, estão presentes seis princesinhas africanas, que um dia se tornaram rainhas. O que há em comum entre elas? Inteligência, força, coragem e beleza, é claro.
        A primeira história “Oiá e o búfalo interior” conta a história de uma princesa muito bela e determinada. Ela adorava brincar com Ogum e dentre seus dons estava o de poder se metamorfosear em animais. Na história “Oxum e seu mistério” a princesinha linda e perfumada conseguia hipnotizar e encantar a todos com sua beleza, sempre conseguindo o que queria.
        Na terceira história “Iemanjá e o poder da criação do mundo” a rainha do mar já demonstrava que desde criança seus atributos de beleza, tranqüilidade, equilíbrio e determinação. Já em “Olocum e o segredo do fundo do oceano” a princesinha era misteriosa e triste. Tinha uma beleza natural e os atributos da introspecção, contemplação e quietude. Mas ela também guardava um grande segredo, só revelado para seu grande amigo Ocô!
        Em “Ajê Xalungá e o seu brilho intenso”, a princesa era irmã de Iemanjá. Desde pequenininha já mostrava sua impetuosidade, curiosidade, empoderamento, orgulho, determinação e coragem. Além disso, era muito bela e possuía o poder de fazer as ondas brilharem! Será que essa princesinha conhece seus limites? Na última história “Oduduá e a briga pelos sete anéis” a princesinha tinha uma beleza rústica, não gostava de se enfeitar. Ela era a Terra e com sua força desejava habitar sua cabaça e possuir os sete anéis. Mas para isso, ela teria que travar uma batalha com Obatalá, o Senhor do Céu!
        Essas narrativas míticas já viajaram por vários lugares e chegaram aqui trazendo encantamento. A força dessas princesas de lá podem inspirar as meninas daqui. Boa leitura!

FICHA TÉCNICA:

Obra: Omo Oba – histórias de princesas
Autora: Kiusam de Oliveira
Ilustrador: Josias Marinho
Editora: Mazza
Ano: 2009

Cleber Fabiano da Silva

                No viés da contramão de posições e olhares etnocêntricos, buscando novos sentidos possíveis de linguagem, de beleza e de discurso encontra-se a obra Passarolindo, 1989, de Mario Vale, editora RHJ.
                O autor – também ilustrador – narra a comovente trajetória do passarinho que morava num sapato velho pendurado no fio até o dia em que uma forte chuva invadiu “sua casa”. Então passou um menino e tirou o sapato com uma vara. O menino achou o Passarolindo e cuidou dele. (s|p)
                Surpreendente nessa obra é que o enredo – de caráter universal – não remete necessariamente à temática africana ou afro-brasileira. No entanto, as ilustrações, bem como, a representação do menino negro – sem justificar sua presença ou existência – demonstra seu pertencimento no mundo de maneira ativa e engajada, como alguém que está pronto para acolher a diferença do outro.
A discursividade proposta nesta simbologia permite ao personagem tornar-se protagonista e herói da história. Longe das estereotipadas imagens que apelam para uma pequena, magra e frágil mão negra infantil estendida para receber esmolas ou para confrontar em fotos apelativas com a politicamente correta mão grande, branca e forte.
Obras dessa natureza constituem importante passo no tratamento dado à africanidade e um grande salto na luta contra a tripla invisibilidade: criança, negra e pobre. Lembrando que Mario Vale é autor do já resenhado O Almoço (1987) e que os dois livros são anteriores às demandas legais e curriculares.

FICHA TÉCNICA:

Obra: Passarolindo
 Autor: Mario Vale
 Editora: RHJ
Ano: 1989

“Capoeira tem mandinga
Capoeira tem Axé
Capoeira, luta nossa
Capoeira, o que é que é?”

Por Sonia Regina Reis Pegoretti

      Esse livro divertido vai fazer a festa na roda de capoeira! São doze cantigas populares selecionadas e escritas em caixa alta para ler, brincar e cantar.
      A capoeira é hoje considerada patrimônio cultural e, portanto um ótimo assunto para curtir e discutir com a criançada. Desde o seu nascimento até os dias de hoje, muita coisa mudou. De luta de resistência nas senzalas brasileiras, hoje adultos e crianças, meninos e meninas a praticam como esporte no mundo inteiro. Ou seria também uma dança? Pois gingado é o que não falta para esses lutadores-bailarinos.
      A organizadora do livro, Bia Hetzel, já foi contemplada com um Prêmio Jabuti de “autor revelação” pelo livro Rosalina, a pesquisadora de homens. Também recebeu o selo “White Havens” pelo livro O porco e o prêmio “O melhor para criança” da FNLIJ com o livro O dono da verdade.
      A ilustração acertou em cheio, com cores e desenhos alegres e vibrantes, bem ao gosto das crianças. Ela fica por conta de Mariana Massarani, que recebeu a menção de altamente recomendável da FNLIJ pelo livro Sousa e Leo: o todo-poderoso capitão astronauta de leox, a cidade espacial.

FICHA TÉCNICA:

Obra: Berimbau mandou te chamar
Organizadora: Bia Hetzel
Ilustradora: Mariana Massarani
Editora: Manati
Ano: 2008



Silvio Leandro da Silva

Quais os recursos que devem ser utilizados na elaboração de escritas destinadas à informação? O caminho traçado por Joel Rufino do Santos em Na rota dos tubarões: o tráfico negreiro e outras histórias e ilustrado por Rafael Fonseca foi o dos materiais iconográficos, dos trechos de livros e da tradição oral. A proposta do autor é realizar uma turnê pelos diversos temas que colaboram para a reconstituição de períodos históricos vivenciados no continente africano e que se estenderam para outras regiões do planeta.
Nas linhas, que narram o trajeto de nossos ancestrais, somos desafiados a perceber falácias reproduzidas através de visões eurocêntricas e provocados a assumir visões utilitaristas quando nos referimos às questões étnicas. Ao folhear as descrições contidas na obra, damos início a uma incursão pelos mais diversos setores da África: cultural, político, econômico e social. Os mapas (natural, político, arqueológico, colonial e de antigos reinos) nos conduzem de forma didática a um campo pouco explorado pelas instituições escolares.
As abordagens sobre as riquezas desse continente apresentam – como o próprio título sugere – a ambição desmedida, causada por ideologias imperialistas que retalharam aquele território em prol de suas economias. Para o autor esse procedimento, justificado de implantação de civilização da África, foi resultou numa única realidade: a de sifilização (p.15).
Em meio às críticas feitas não só ao sistema de governo e monetário europeu, mas também ao africano, somos contagiados por ilustrações que ora nos seduzem por suas cores e poesia, ora nos enchem de indignação, por seu conteúdo militante.
Com certeza uma leitura para aqueles que desejam – em seus cardumes – não serem engolidos por predadores vorazes.

FICHA TÉCNICA:
 
Obra: Na rota dos tubarões  
Autor: Joel Rufino dos Santos
Ilustrador: Rafael Fonseca
Editora: Pallas
Ano: 2008


Por Sonia Regina Reis Pegoretti


        Uma viagem de volta às raízes africanas é o que propõe o livro Erinlé, o caçador e outros contos africanos de Adilson Martins. Ao todo estão reunidos oito contos africanos que falam da natureza e seus animais mágicos, heróis e deuses que contam suas trajetórias.
        O caçador é um personagem muito importante na sociedade africana, sendo responsável não só pela caça, mas também pela proteção das aldeias contra o ataque dos animais e são ainda conhecedores das ervas medicinais. Não é por menos que um dos destaques do livro fica por conta de “Erinlé o caçador”, que conta a história dos feitos de um bravo caçador, que por ter vencido um leão, uma hiena, uma serpente e até mesmo um gigante, agora queria para si o título de rei da floresta. Mas o que nosso herói não lembrou é que faltava um animal de força descomunal: o elefante! Quem será o vencedor desse duelo?
        O livro da Pallas editora traz ainda a ilustração de Luciana Justiniani Hees, com traços fortes e característicos da arte africana.

FICHA TÉCNICA:

Obra: Erinlé, o caçador – e outros contos africanos
Autor: Adilson Martins
Ilustradora: Luciana Justiani Hees
Editora: Pallas
Ano: 2008


                 Por Cleber Fabiano da Silva

                Silenciada e considerada um grande e misterioso segredo divino, a morte é persona non grata ao homem contemporâneo. No entanto, paira soberana e absoluta nas listas das impossibilidades humanas. Nessa categoria, estão também os espíritos da floresta, os duendes, os feiticeiros, as bruxas, enfim, toda a leva de seres sombrios que do além chegam para importunar os outros seres: os vivos.
                Em Lendas Negras, de Júlio Emílio Braz, editora FTD, 2001, oito histórias originárias de países africanos dos quais nem sempre temos notícias, como: Botsuana, Angola, Mali, Tanzânia, Quênia, África do Sul e Nigéria trazem de modo divertido e muito bem escrito essas lendas que nos chegam desde lendários povos nômades até grandes e poderosos reinos antigos.
                Em todas as narrativas essa presença – nem sempre sentida por todos – dos elementos mágicos e sobrenaturais que povoaram o imaginário desses povos e agora permite-nos também sonhar com indivíduos que lutam contra a morte, negociam com espíritos, cantam para cabaças, carregam a morte na costas ou ainda conversam com uma caveira enfiada num oco de pau. 
                As ilustrações de Salmo Dansa complementam o clima da obra ao trabalhar com luz e sombra permitindo os devaneios do leitor e auxiliando-o a embarcar em longínquas lendas carregadas de tantos mistérios e segredos.         
                                              
FICHA TÉCNICA:

Obra: Lendas Negras
Autor: Júlio Emílio Braz
Ilustrador: Salmo Dansa
Editora: FTD
Ano: 2001



Por Sonia Regina Reis Pegoretti

                Muitos dizem que sua história é uma lenda. Outros dizem que ela é um mito. Já foi enredo de escola de samba, já foi fonte de inspiração para poesia, romance, teatro e cinema. O fato é que as historiadoras Keila Grinberg, Lucia Grinberg e Anita Correia Lima de Almeida resolveram contar, utilizando recursos ficcionais, um pouco da vida de Chica da Silva, personagem que fez história no Brasil e que foi aclamada por todos aqueles que um dia queriam ser libertos e também odiada por muitos outros, numa sociedade escravocrata do Brasil do século XVIII.
                A escrita é leve, a linguagem é de fácil compreensão e inclui um glossário explicativo com o significado do vocabulário da época. Mas a história é consistente e não engana o leitor quanto à crueldade e formas de escravidão que aconteciam,não só no Brasil mas em todo continente americano por mais de três séculos.
                A narrativa criada pelas autoras se entrelaça com fatos e fotos históricas garimpadas em acervos de museus ou bibliotecas nacionais, bem como através de outros autores que já pesquisaram sobre a vida de Chica ou sobre a época em que ela viveu. Assim, nesse vai e vem, o leitor vai podendo conhecer uma história marcada pela luta, pela sorte e pelo amor de uma mulher, em épocas difíceis,até para quem não era escravo.
                Para conhecer Chica da Silva (2007, Zahar) é acima de tudo uma história sobre resiliência e que pode inspirar muitos jovens na (des) construção dos seus saberes e na percepção da importância de vivermos na diversidade e na pluralidade de culturas.

FICHA TÉCNICA:

Obra: Para conhecer Chica da Silva
Autoras: Keila Grinberg, Lucia Grinberg e Anita Correia Lima Almeida
Editora: Zahar
Ano: 2007

Por Maria Lúcia Rodrigues e Sueli de Souza Cagneti

                 O tempo é soberano, muda homens, muda pensamentos, muda destinos. Às vezes, o tempo também abre cortinas e a paisagem que se encontrava velada se revela em detalhes preciosos, não precisando obrigatoriamente apontar o real, uma vez que ele depende mesmo é de nosso  ponto de vista.
O livro de narrativa visual “Os donos da bola”, de Jô de Oliveira, traz em seu enredo uma dessas paisagens subitamente reveladas. O autor lança um olhar novo e divertido para um tema tão banal para o brasileiro: o futebol, mais especificamente a sua história,  olhada, a       partir dos que se consideram os donos da bola: nós brasileiros.
Quem inventou o futebol com suas regras foram os ingleses. É fato. Contudo, mesmo o sendo, Jô de Oliveira muda a história desse esporte, não para questionar o instituído, mas para abrir a cortina e nos mostrar o que significa riqueza cultural e material para uma nação.
O autor narra em imagens sua versão para a história do esporte com traço caricato e carregado de preto por meio de um menino escravo no Rio de Janeiro dos oitocentos, que vê uma indígena deixar cair uma bola (que pode ser um coco ou uma bola de borracha) de seu cesto ao passar por ele numa ruela da cidade. Em meio a euforia de pegar a bola que rolava pela rua juntam-se ao menino outros escravos adultos que em cabeçadas, toques de peito, e chutes vão conduzindo-a. Nessas passagens que são o  fio condutor da narrativa, paisagens cariocas e costumes vão sendo revelados.  A questão é que sem perceber, e é sempre assim, a brincadeira de escravos era observada atentamente por um estrangeiro.
Pois é, dizem que os mais fortes fazem a história. Mas, às vezes, existem momentos de reflexão em olhares que contradizem e questionam os meios nos quais ela se constrói, e nós, que somos mais espectadores do que agentes dela (a história), devemos decidir em que verdade acreditar.

FICHA TÉCNICA:

Obra: Os donos da bola
Autor e ilustrador: Jô de Oliveira
Editora: Escala Educacional
Ano: 2010

Por Sonia Regina Reis Pegoretti

                Nos últimos anos a literatura infantil tem protagonizado uma importante discussão. Afinal, como avaliar o que entra em sala de aula? Quais parâmetros (se é que existem) seguir?
                O livro Literatura Infantil – políticas e concepções (2008, Autêntica), organizado por Aparecida Paiva e Magda Soares, é fruto de análises e reflexões de pesquisas realizado pelo Ceale/FaE/UFMG. Presentes no livro estão oito artigos que exploram o universo infantil e podem ajudar o professor a ter um olhar mais sensível no que diz respeito aos livros direcionados aos pequenos.
                No que diz respeito às políticas etnicorraciais e à diversidade, dois artigos em especial chamam a nossa atenção: A produção literária para crianças: onipresenças e ausência das temáticas, escrito por Aparecida Paiva e Representação e identidade: política e estética étnico-racial na literatura infantil e juvenil, escrito por Aracy Martins e Rildo Cosson.
Paiva (2008) faz várias considerações importantes acerca da literatura infantil contemporânea. A primeira delas refere-se ao utilitarismo dos textos. A autora aponta que a grande enxurrada de textos que apareceram junto com os “temas transversais” provocou de certo modo uma adequação da literatura infantil ao currículo escolar, à intenção pedagógica. Quanto mais próximo o estilo narrativo do conteúdo a ser ensinado em sala de aula, maior é a sua utilização pelo professor.
Outra questão abordada por Paiva (2008) é a qualidade textual, qualidade temática e qualidade gráfica das publicações que hoje estão no mercado como “clássicos” para crianças. A avalanche de títulos que se enquadram nessa categoria torna difícil a escolha adequada pelo professor. Por parte dos recontos dos clássicos, muitos deles também deixam a desejar, dando a impressão de uma história incompleta, vazia.
Já o texto de Martins e Cosson (2008) trata as representações sociais como mote para várias indagações sobre a grande demanda de livros étnicorraciais a partir da Lei 10.639/03. Reflete sobre a grande diversidade de formatos e registros desses livros, tornando difícil a classificação das obras. Porém a questão evidenciada foi: “Como a literatura infantil e juvenil no Brasil responde contemporaneamente às demandas étnico-raciais de identidade e representação dos negros?” (MARTINS; COSSON, 2008, p. 56).
O caráter político dessa representação nos livros de literatura infantil e juvenil é apontado como algo que foi reivindicado legitimamente pela comunidade afro-brasileira. “Quando falamos de sujeito na literatura negra, não estamos falando de um sujeito particular, de um sujeito construído segundo uma visão romântico-burguesa, mas de um sujeito que está abraçado ao coletivo” (EVARISTO, 2000)[1].
Cabe agora aos professores e pesquisadores expandir a discussão para que equívocos referentes a essa temática e à própria literatura africana e afro-brasileira sejam minimizados.

FICHA TÉCNICA:

Obra: Literatura infantil – políticas e concepções
Organizadoras: Aparecida Paiva e Magda Soares
Editora: Autêntica
Ano: 2008



[1] EVARISTO, Conceição. In: Congresso Internacional da ALADAA, 10. Rio de Janeiro, 2000. Disponível em: . Acesso em: 22 jun. 2011.

Por Cleber Fabiano da Silva

"Os adultos pensam que a nossa vida é só brincar. Não é bem assim. A vida de Charlita nem sempre era fácil com a missão de dividir os óculos dela na hora da telenovela porque as irmãs também queriam utilizar os óculos para ver bem" (p. 31) "Uma tristeza de lágrimas me chegou logo nos olhos e tive que disfarçar que era do sol" (p. 56).
Com questionamentos filosóficos e devaneios poéticos, o narrador de Avó Dezanove e o segredo do soviético, do angolano Ondjaki, Cia das Letras, 2009, conta as aventuras ocorridas na PraiadoBispo em função da construção de um mausoléu para guardar o corpo do ex-presidente Agostinho Neto e a ameaça circundante de desalojar os moradores.
Ambientado com informações históricas e com pitadas biográficas, os personagens – verdadeiros tesouros literários – surpreendem pela caracterização e pela sensibilidade que os constitui. Com os olhos e ouvidos atentos, as crianças do bairro desconfiam das tramas dos "lagostas azuis" como eram chamados os soviéticos.
A obra surpreende pelo belíssimo trabalho com a linguagem. Narrada num misto entre o português coloquial falado em Luanda com as digressões de fala e pensamento dos miúdos. Merecem destaque também a silenciosa presença da AvóCatarina e AvóAgnette – chamada por motivos particulares – de Avó Dezanove.
A busca pelo segredo costura a trama com originalidade entre o narrador e seu melhor amigo: o 3,14. Amizade com ares e preocupações de gente grande: "__Ouvi dizer que os peixes são muito esquecidos. __Querias esquecer?__Acho que não. Se eu tiver sete filhos, como é que vou fazer para ter estórias boas de contar?__Não te preocupes com as estórias. As estórias boas de contar são as que nós inventamos".
Eis uma boa estória inventada. Um livro magistral. Poético. Inteligente. A grande revelação da literatura africana de Língua Portuguesa.

FICHA TÉCNICA:                                                             

Obra: Avó Dezanove e o segredo do soviético      
Autor: Ondjaki       
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2009
Por Sonia Regina Reis Pegoretti

                O rio Zambeze se localiza no Zimbábue. Lá, vive o povo xona, de onde vieram as histórias e os cantos contidos no livro de Décio Giotelli, A mbira da beira do rio Zambeze. Entre os xonas os idosos são muito respeitados porque detém o conhecimento de histórias que passaram de geração em geração.
                O menino Chaka toca mbira[1], e é o personagem principal dessa aventura, que vai caminhando e aprendendo através dos contos e das canções, que estão gravadas ao som da mbira em um CD que acompanha o livro. Lugares, animais e seres sagrados vão aos poucos sendo desvendados por Chaka na “morada das pedras”. Esse misto de narrativas, músicas e informações fazem de A mbira da beira do rio Zambeze uma possibilidade para aquelas crianças acostumadas com os hiperlinks, navegando de um lado para outro como e quando quiserem.
                As belas fotos ficam por conta de Marie Ange Borbas e a ilustração, bem característica da arte africana, de Suppa. O livro ainda conta com a colaboração de Heloisa Pires Lima como organizadora.

FICHA TÉCNICA:

Obra: A mbira da beira do rio Zambeze
Autor: Décio Giotelli
Fotografia: Marie Ange Borbas
Ilustrador: Suppa
Organização: Heloisa Pires Lima
Editora: Salamandra
Ano: 2007


[1] A mbira é um instrumento musical pequeno, que se coloca entre as mãos.

Por Maria Lúcia Rodrigues e Sueli de Souza Cagneti
                                                                                                                     
Sempre em algum lugar uma história, mesmo tendo séculos, será nova para alguém. Qualquer um constata isso, não há novidade, mas mesmo não sendo novidade para muitos, novos olhares e novas linguagens podem tornar interessante e belo o que o tempo tornou clássico.
Jerry Pinkney, premiado ilustrador norte americano, expõe em uma narrativa visual, uma das fábulas de Esopo, O leão e o camundongo. Sua versão não tem a intenção de propor adaptações para a fábula, como grande parte das obras contemporâneas que trabalham com revisitamentos clássicos, a não ser pelo fato da história estar sendo contada inteiramente em imagens. Mesmo não tendo a intenção de adaptar o texto de Esopo, ao parafrasear a história apenas por meio da imagem, permite ao leitor uma liberdade maior na proposição de leitura, pois não fica tão explicito, quanto na palavra, a moralidade presente, característica marcante  daquele tipo de texto.
As imagens descortinam calores africanos de uma savana latente em vida. Assim é o cenário, onde se passa a fabula do leão que deixa livre seu petisco, um camundongo, e este em retribuição lhe salva dos caçadores.
Pikney traduz a atmosfera grandiosa da savana africana em aquarelas detalhadas com suavidade no pincel em inúmeras camadas de cor onde os tons dourados e verdes predominam. As cenas se abrem e se fecham em detalhes nas páginas e os sons se fazem presentes em pequenas inserções de onomatopeias
Essa fábula ganha nova vida como narrativa visual, mas, sobretudo, mostra que amizade e lealdade não dependem de posições sociais. Por isso, quando a sede assolar, é sempre bem vinda uma fonte, mesmo que de tempos tão distantes. 

FICHA TÉCNICA:
                                                                                             
Obra: O leão e o camundongo
Autor e ilustrador: Jerry Pinkney
Editora: Martins Fontes
Ano: 2011

      Se você tem pesquisa ou estudos que se encaixem em um dos eixos: “Estratégias de leitura: exploração da linguagem verbal e visual” ou “Análise crítica de textos literários”, não deixe passar essa oportunidade! Contribua com a comunidade acadêmica e profissionais da área de educação através de uma comunicação no Abril Mundo 2012 - A literatura africana e afro-brasileira

      As inscrições deverão ser feitas pelo site da Univille e terão como prazo máximo o dia 28 de março, salientamos que as comunicações serão avaliadas pela coordenação do evento. Os autores dos resumos selecionados deverão entregar ao coordenador do simpósio uma cópia do trabalho em CD, no dia de sua apresentação.


Regulamento e informações sobre o evento nas páginas do Abril Mundo 2012 no site da Univille e no Blog do Prolij.

Por Cleber Fabiano da Silva

            Diante das recentes publicações em torno da temática afro-brasileira uma pérola do passado encanta e merece respeito. Encharcado de literariedade, a escritora Geni Guimarães comove com sua bela A cor da ternura, editora FTD, 1989. Uma obra que consegue com propriedade dar conta das relações e do protagonismo do negro.
           De cunho autobiográfico, relata magistralmente a trajetória da penúltima filha de uma família de oito irmãos, de origem negra e humilde. Apesar das dificuldades de sua condição social e preconceitos, supera os conflitos externos ambientados na fazenda, bem como, a aridez de seu interior habitado por seus medos.
            Entre suas primeiras lembranças, o leite materno representava o sabor da própria infância. Os braços da mãe, a extensão do tanto de amor que a menina necessitava. Os atravessamentos provocados pela chegada do irmão e uma saudade que não se pode curar com chás.
       Em seus tempos de escola, a feitura de versos. Com a poesia, a tomada de consciência das desigualdades dos homens metamorfoseando-a. Na figura paterna, o alicerce e motivação para conquistar seu tesouro: o sonho de ensinar. Tornar-se professora nasceu do desejo de orgulhar seu pai e fazê-lo esquecer as durezas da vida. Eis o desabrochar de uma mulher...
        As ilustrações de Saritah Barboza ajudam a compor a atmosfera lírica da obra. São quadros expressivos que parecem saltar de folhas de papel através de tons terrosos da própria história-vida da personagem. 
            A simplicidade da poesia contida no livro guarda grandes verdades que grudam no leitor e ficam a provocar risos, angústias, lágrimas, encantamento... A cor da ternura é uma homenagem ao nosso folclore, nossa gente, a mulher brasileira e a boa literatura! Merecidamente a autora recebeu o Prêmio Jabuti na categoria autor revelação em 1990.
                                   
FICHA TÉCNICA:

Obra: A cor da ternura
Autora: Geni Guimarães
Ilustradora: Saritah Barboza
Editora: FTD
Ano: 1989
Por Sueli de Souza Cagneti

Leny Werneck em 1990 editou pela Salamandra um longo texto sob o título ZAZ, hoje reeditado de forma enxuta e bonita, passando a chamar-se Onde está você, Iemanjá? Nessa edição de 2011 da Record, as ilustrações (mágicas, muitas vezes) ficaram por conta do francês Philippè Davaine. São dele, inteiramente, as páginas 12 e 13, por exemplo, que retratam uma Iemanjá  negra, de longos cabelos pretos, nua e insinuante ao olhar-se ao espelho. É a deusa do Candomblé. À sua esquerda, de pé, vestida de azul e branco, Nossa Senhora da Conceição: uma transposição da divindade religiosa dos escravos africanos para o conceito católico de santidade, em obediência/disfarce aos senhores brancos. A menina-moça, também negra, protagonista da história que aqui se conta, sonha em ver seus desejos atendidos por Iemanjá e chama por ela em horas precisas como aquela em que ZAZ, o barquinho, afunda na véspera do Ano Novo. No mais é ler o texto, apreciar suas ilustrações e, sobretudo, refletir sobre esse Brasil tão grande, não apenas em extensão, em belezas naturais, mas também, e muito, em riqueza cultural, cuja herança vinda de outras etnias, começamos a olhar com mais cuidado e respeito atualmente. A Literatura Infantil Juvenil brasileira tem dado contribuição significativa nesses tempos de incorporação tardia do que há muito aqui está e que nos tem feito maiores, enquanto nação culturalmente multidiversificada. Esse livro de Werneck é um exemplo disso.

FICHA TÉCNICA:
                                                                                             
Obra: Onde esta você, Iemanjá?
Autor: Leny Werneck
Ilustrador: Philipeè Davene
Editora: Record
Ano: 2011
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