Meio camundongo é o quanto pesa o encantador protagonista da história que leva seu próprio nome: A história de Despereaux, de Kate DiCamillo, Ed. Martins Fontes, 2005, obra ganhadora da Newbery Medal (principal prêmio de literatura infanto-juvenil dos Estados Unidos).

Se não bastassem seus 60 gramas (imagine que outros camundongos médios pesem 120 gramas), Despereaux Tilling ainda tem orelhas enormes (justificando ser considerado nada para a decepcionada mãe camundonga Antoinette), gosta de luz, música e humanos, pecados mortais para a sua raça.

Tanta diferença, acentuada pela paixão que nutre pela meia princesa Ervilha, faz com que o Conselho dos Camundongos se reúna para cumprir o que determina a lei tradicional dos camundongos do castelo nestes casos: envio ao calabouço e aos ratos.

Através desse destino que parece trágico, vão sendo conhecidas outras histórias, como a do rato Roscuro, que vivendo na escuridão, deseja luz, e a da criada Migalha Sementeira, que sonha em ser princesa. Todos estão presentes em alguns encontros: no escuro e fétido calabouço (prepare-se para sentir arrepios), na mesa do salão de banquete do castelo e em especial consigo mesmos, enfrentando escuridões interiores, iluminando-se e levando luz uns aos outros. Como bem afirma Gregório, o carcereiro do calabouço, histórias são vidas, e esta leitor, a qual convidaria Migalha Sementeira a exclamar seu famoso “Minha nossa!”, vai mexer com a sua.

Áurea Cármen Rocha Lira - Pesquisadora - voluntária do PROLIJ
Fevereiro de 2010.
 É incrível como a literatura infantil insiste em fazer a criança dormir! Mesmo que para isso tenha que se fantasiar do pijama mais elaborado.
 Tal proposta é feita na quarta-capa de "Viviana - Rainha do Pijama", como uma "alegria para a hora de dormir", do autor e ilustrador Steve Webb.
 A menininha com ares de sapeca vive em um mundo giz pastel, no qual textos movimentados torneiam figuras e seguem uma métrica quase musical. Fora da cama, a personagem decide escrever a vários de seus amigos animais e convidá-los pra um concurso de pijama.
 A partir daí está iniciada a "brincadeira", como também é a proposta na capa do livro. cabe ressaltar que a obra traz, além do título, nome do autor e editora, duas frases de impacto comercialmente atraentes que incitam o leitor mais despreparado no sentido literário.  Está aí um bom trunfo editorial e um bom exemplo de excesso de informações semânticas.

 Em "Viviana - Rainha do Pijama", as ilustrações apresentam cargas extremamente literais, nas quais os personagens ganham feições sorridentes, amenas e, opa! Deixam transparecer pop-ups (ou dobraduras de papel) tornam o produto-livro um atrativo muito mais comercial do que literário, desviando o interesse pelo texto que, por ser métrico e previsível, passa despercebido.
 Instantaneamente, o leitor percorre as folhas até suas dobraduras, e como em um ato automatizado, vira a página à procura de mais e mais, até quem sabe, se cansa e vestir o seu pijama.



Charlotte Pires - Pesquisadora Voluntário do PROLIJ


Ficha Técnica:
Autor/Ilustrador: Steve Webb
Salamandra
Nº de páginas: 34
Publicação: 2006
  Transportado para tempos outros, muito além daqueles que conheceram a tirania dos relógios, o leitor dos contos que Marina Colasanti harmoniosamente reuniu na obra Do seu coração partido vai sendo invadido por uma forte atmosfera mítica, tão mágica que tem o poder de despertar o real ao fazer o leitor confrontar-se com medos e desejos de seres também outros, mas assustadoramente tão (semelhantes a ) ele. “De muito procurar” é conto assim: um homem que por atenção ao que poderia achar pelo caminho sempre andava de cabeça baixa, que via ao longe sem pelos outros ser visto, só encontra em um grande amor o que precisava perder para vivê-lo tão intensamente: o juízo.

Não bastassem as considerações anteriores, Marina, com a singeleza das ilustrações que fez para sua obra, publicada pela Global em 2009, comprova que sua mão poética não nasceu apenas para as palavras; conhece também no desenho a forma de muito dizer.



Áurea Cármen Rocha Lira – Pesquisadora-voluntária do PROLIJ

Fevereiro de 2010.

Cada vez que acabamos de ler um livro de Lobato vem aquela vontadezinha sem fim de mandar uma carta ou quem sabe até um e-mail para o Lobato e dizer todas aquelas coisas que a gente fica imaginando com ele enquanto lê. E vão surgindo todas as idéias e as angústias, sim, as angústias porque cada vez que a Emília sofre com alguma coisa a gente aqui sofre também, e então a gente quer falar, contar tudo, porque leitor é assim, bicho doido que mergulha naquele mundo e não quer sair mais. É isso aí! Vou mandar uma carta, não, penso que seja melhor um e-mail, Lobato era tão visionário que a essas alturas já haveria feito todas as suas críticas em algum twiter, orkurt ou coisa parecida. Mas como sou um pouco saudosista vou enviar uma carta, sim, uma linda carta dessas que a gente envia com o coração cheio de alegria, em que a mão parece escrever mais do que a gente imagina, e que a gente fica doido de vontade de esperar a resposta. Então vamos lá!

Querido Lobato,

Acabei de ler a reforma da Natureza e fiquei com uma vontade de escrever pra você porque como sempre digo, leitor é uma coisa muito doida, muito maluca, cheio de idéias e que vive tão intensamente todas as coisas que acaba se transportando pro mundo daí. Então resolvi compartilhar todas essas minhas, sei lá como chamam, acho que seriam impressões do que vivi com este livro, bonito nome, mas sei que se dissesse minhas angústias já irias me entender. Aqui também tão querendo reformar tudo, não colocaram o rabo no meio da vaca, mas eu penso que falta pouco para eles acabarem com a vaca de uma vez por todas. Fico tão angustiado com o ser humano que ao invés de buscar soluções pra um jeito melhor das coisas fica brigando feito cão e gato. Parece não ter mais jeito, Lobato. Se dona Benta e Tia Nastácia estivessem aqui, penso que solucionariam essas questões. Mostrariam aos lideres atuais como se administra um bom lugar pra viver. Tia Nastácia faria deliciosos bolinhos, e pronto, a reunião estaria feita. Eu acho que faltam as histórias de dona Benta e sua deliciosa sabedoria para que todos possam compreender que as coisas são mais simples do que imaginamos. E que com a Natureza não se mexe, com as coisas que são nossas desde sei lá quando, não podemos brincar não. Tenho até pensado numa grande reunião aí no sitio, eu acho... É... Aí! No sítio será o melhor lugar. Todos os líderes mundiais estarão aí para discutirem essas coisas todas que causam tanta briga por aqui. Se eles vivessem no mundo dos livros veriam que tudo é tão mais gostoso quando se sonha e vive cada coisa do jeito mais simples possível. Bem, agora falando um pouco mais do livro, não compreendo como podes ser tão visionário, todas essas coisas que você coloca no mundo daí parece ser tão real que até arrepia. Às vezes acho que você mandou um substituto, e trouxe todas as idéias que a Emília tentou fazer, inclusive a leiteira que apita, realmente, você é impressionante. Compreendo a posição da Emília, boneca de coração, sim. Enquanto os bobalhões cruzam os braços ela está lá firme e forte tentando buscar novas soluções, é óbvio que acaba fazendo bobagem, mas pelo menos tenta, não é. E, então, vem a Dona Benta com sua sabedoria milenar, dos livros e tenta explicar que as coisas não são bem assim. Ela teima e acaba aceitando, como também, dona Benta tem de aceitar as de Emília. É por isso que acho que dona Benta deveria vir para controlar as coisas por aqui. O que está faltando em nosso mundo, Lobato, são pessoas que tenham o bom senso, mas não os dos bancos escolares. Esse por mais que seja bom está cansado. O bom senso dos que lêem os livros é natural, é humano, porque só os livros conseguem humanizar e mais ninguém.

Bem, acho que falei demais. Não quero lhe pedir nada, acho que quero lhe agradecer por ter nos dado esses seus livros, que nos consolam diante de tanta coisa que já vimos e veremos.

Um abraço do seu leitor.

Nome? ... Acho que não precisa, falo em nome de tantos!


Rodrigo da Silva – pesquisador voluntário do Prolij.

“A vida na porta da geladeira”, publicado pela WMF Martins Fontes (2009), de título original: “Life on the refrigerator door”, 226 páginas, romance de estreia da inglesa Alice Kuipers, tem uma narrativa surpreendente.

A história se estabelece através da troca incessante de bilhetes entre uma mãe, médica, ocupadíssima, e sua filha adolescente, que moram juntas, mas que muito pouco se veem.

Quando a gente imagina uma história contada por bilhetes fixados diariamente na porta da geladeira de casa, o primeiro sentimento é o de curiosidade. E, o segundo, é o de desconfiança. Pelo menos, comigo, foi assim. Logo que li a orelha do livro e o folhei rapidamente, pensei o quanto poderia ser monótona essa troca de bilhetes. Mas não é!

Não há narrador, não há personagens secundários e ambas são protagonistas. O set da narrativa, arrisco aqui, é o próprio relacionamento entre as duas, é a psique entremeada ao diálogo. E, o diálogo, por si, faz o papel de narrador, uma vez que a autora consegue com sutileza, imprimir ritmo, dramaticidade e tensão, às vezes numa simples mudança de enunciado do bilhete, como, ao invés de: “Claire”; para: “Pobre, Claire ”. Ou nas frases de despedida nos bilhetes da filha: “Com amor, sua filhinha”. Quando falo do diálogo, como narrador, é porque essa representação das conversas entre as duas, que não se veem, mas parecem tão perto uma da outra, nos dá a sensação de uma terceira voz na narrativa.

“A vida na porta da geladeira” surpreende na medida em que Kuipers consegue, entre listas de compras e outros avisos tão cotidianos escritos nos bilhetes à filha, alinhar uma relação de cumplicidade entre ambas, com muita intensidade, apesar da ausência. A narrativa é um jogo, com constância, e um final avassalador, em que, talvez, ninguém perca nessa relação tão distante. Afinal, depois da tragédia, a filha ainda aguarda um possível bilhete da mãe na porta da geladeira. Quem sabe!

Título: A vida na porta da geladeira
Autor: Alice Kuipers
Editora: WMF Martins Fontes (2009)
Número de Páginas: 226

Pierre Porto Silveira
Redator, Editor de Cultura e Colaborador do Prolij
Nascida na tranqüila e delicada Curupá (SC), Sueli de Souza Cagneti transita entre mundos, e assim nesta “viagem” transporta na sua bagagem histórias contendo muitas experiências no que se refere a livro, leitura e literatura. Sua atuação profissional é especialmente dedicada a um mar de leituras de livros endereçados à literatura infantil, infanto-juvenil e juvenil e livros de crítica e teoria literária. Ao ler Uma História De Tantas Histórias, de Cagneti, a autora nos convida a entrar em uma sala de aula aconchegante para dividir suas experiências literárias elaboradas por anos de estudos, leituras, chão de sala de aula, congressos, seminários e eventos literários.
O livreto que Cagneti apresenta aos professores e aos profissionais da leitura é recheado de discussões e pistas de leitura que são produzidos na contemporaneidade. Assim como ela mesma coloca, o livreto não é um caderno de receita, mas um ponto de partida para lançar a garrafa ao mar... Há provocações para pensarmos no ambiente escolar, nos acervos e na abordagem do professor para discutir por que, o que e como ler na sala de aula. Uma leitura e um livreto que sem dúvida tem suas razões.

Livro: LITERATURA INFANTIL E JUVENIL: UMA HISTÓRIA DE TANTAS HISTÓRIAS
Autora: Sueli de Souza Cagneti
Editora: Letras Brasileiras

Alcione PauliMestranda do Curso Patrimônio Cultural e Sociedade, da UNIVILLE
Pesquisadora do PRLOIJ
Coordenadora das Bibliotecas Públicas de Joinville

Aquilo que a gente não vê parece ser mais claro do que aquilo que vemos. Principalmente quando isso pode ser visto pelos olhos da imaginação. Em “O olho de vidro do meu avô” Bartolomeu Campos de Queiroz mais uma vez encanta pelas palavras. Em frases que parecem versos poéticos o neto busca no olho de vidro do avô suas dúvidas, anseios e até suas saudades. Revivendo situações e fatos, a lembrança do olho lhe traz não explicações, mas conforto diante daquilo ou daquele que aprendemos a amar. Tecendo uma história como a de muitos com os seus diferentes caminhos o neto vai ao âmago de questões e traz pra si as lições deixadas, seja no silêncio que fala. No olho que não enxerga e vê. No contato distante ou no afeto emudecido. Pois, a lembrança que fica mesmo em meio a mistérios, é tão boa que dá vontade de ficar olhando. Que tal? Não dá uma vontade de olhar logo essa história!

Título: O olho de vidro do meu avô
Autor: Bartolomeu Campo de Queiroz
Editora: Moderna
Número de Páginas: 46

Rodrigo da Silva
Pesquisador voluntário do PROLIJ

Ruy Castro é (re) conhecido como um dos grandes biógrafos do Brasil, tendo escrito sobre figuras conhecidíssimas como Nelson Rodrigues e Carmem Miranda. Contudo, desta vez ele ataca de romancista-historiador. E se dá bem. Saboroso é o livro “Era no tempo do rei”. E tem gosto de aves fritas, frutas tropicais e suco de jenipapo com açúcar, que são algumas das especiarias do rico cardápio da família real portuguesa. Através de uma linguagem fluente e interessante – com termos e expressões pouco usadas hoje em dia – o autor mostra não só a ostentação da corte no Rio do início do século XIX, a qual tramitava entre o Paço Imperial e a Quinta da Boa Vista, mas também a ralé nas vielas, becos, morros daquela época. E esta desigualdade é, muitas vezes, transmitida pelos olhos de dois amigos bem desiguais: Leonardo, o malandro saído de “Memórias de um sargento de milícias”, e Pedro, futuro rei de nossas terras. Eles se conhecem por acaso e vivem grandes aventuras, surpreendendo-se (e ao leitor também) com figuras diversas: prostitutas, ciganos, ladrões, assassinos, estrangeiros, enfim, com uma pluralidade de seres humanos, reais ou não, que sempre fizeram parte do Brasil.

Título: Era no tempo do rei
Autor: Rui Castro
Editora: Alfaguara
Número de Páginas: 248
Preço: R$ 27,90

Alencar Schueroff
Professor do Persona e pesquisador voluntário do PROLIJ

Na obra “Tempo de voo”, do mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, a narrativa decorre do diálogo entre um sujeito mais velho e uma curiosa criança. É através da visão de um homem de olhos trincadinhos – sulcos de experiências, que o autor taxativamente conduz seu pensamento e elabora uma sugestiva análise a respeito do tempo. A escrita de Queirós, caracterizada pela sutileza e poesia, entra em sintonia com as ilustrações de Alfonso Ru ano, que apresenta ao leitor uma série de imagens quase surreais, mas que se justificam pela constante temática que envolve tempo e memória. O acervo de vivências que possuímos em nossas memórias, é transformado em simulacros que nos possibilitam transitar entre passado e presente. A obra apresenta o tempo como um abraço que, ora sufoca, ora conforta. Um aviso sobre a impossibilidade da fuga contra o tempo e de seu constante espectro – onipresença, que deve ser transformada apenas em aceitação da nossa condição de envelhecimento ou maturidade. As imagens avulsas, presentes nas páginas que constituem o enredo, são representações das simbologias gravadas em nosso inconsciente. O tempo, assim como a memória, é vilão e herói. Sua dubiedade intriga e conforma. É no encontro com o outro que a personagem de um homem mais experiente se reconhece. E é nessa descoberta que nós, sujeitos ficcionais ou não, nos afogamos cada vez mais nas incertezas trazidas pelo fator tempo. Com certeza uma obra para os diversos ciclos da vida, imposta pela condição de sermos humanos.

Autor: Bartolomeu Campos de Queirós
Ilustrador: Alfonso Ruano
Editora: SM
Número de Páginas: 48
Ano de Publicação: 2009

Silvio Leandro da Silva
Pesquisador voluntário do PROLIJ

Pode-se dizer, sem receio, que a genialidade de Hans Christian Andersen, transcendeu seu país de origem e se dissipou pelo mundo. Suas narrativas para crianças fizeram com que fosse considerado o pai da literatura infantil.
Dentre os vários contos que se tornaram conhecidos, pode-se dizer que A Roupa Nova do Imperador é dos mais importantes. Quase dois séculos após sua publicação, a história se mantém atual como nunca e merece ser lida sempre. Os temas abordados - egocentrismo, trapaça, falsidade – continuam atuais e assim será enquanto nós, serem humanos, existirmos.
O enredo fala de um Imperador que só se preocupava com roupas. Até que, certo dia, aparecem costureiros falsos, afirmando possuir um tecido que seria invisível para quem não estivesse à altura de seu posto ou para os muito estúpidos. Como tal fazenda não existia, ninguém a via. Isto aborrecia a todos que visitavam o tear dos ladrões.
O rei, bem como todos os seus súditos, sentia-se angustiado por não ver o tecido, mas não dizia nada. Em um desfile, ele resolve usar a roupa imaginária. Porém, de repente, uma criança diz não estar vendo nada. Apesar de o comentário se espalhar, o Imperador prossegue sua caminhada patética. O fato de a criança ter se pronunciado, enquanto os adultos elogiavam algo que não estavam enxergando, é muito significativo e satírico. Andersen, de uma forma engraçada, expõe como somos, ao passar dos anos, corrompidos e nos tornamos hipócritas.
Enfim, acima de tudo, estamos falando de boa literatura – aquela que faz a gente refletir, levantar os olhos do papel e sorrir com o canto da boca.
Em 1997, foi lançada, na Inglaterra, uma edição de A Roupa Nova... em que o conto aparece sozinho, com tradução para o inglês de Naomi Lewis. Ela assina também um interessante prefácio. Contudo, o que se destaca no livro são as ótimas ilustrações de Angela Barret, com elementos que fazem lembrar o início do século XX. Desta forma, ela situa a história em uma época diversa de sua publicação primeira (1837), enriquecendo a obra e confirmando sua característica atemporal. A tradução do inglês para o português fica por conta de Gilda de Aquino.

Título: A roupa nova do imperador
Autor: Hans Christian Andersen
Ilutradora: Angela Barret
Editora: Brinque-Book
Ano de Publicação: 1997

Alencar Schueroff
Professor do Persona e pesquisador voluntário do PROLIJ


Soldados. Trincheiras. Tensão. Os elementos são bastante comuns em livros que tem em seu enredo o tema das guerras - independente de sua data ou localização. Mas o que a obra dos franceses Jean-Baptiste Cabaud e Fred Bernard apresenta é algo bastante incomum no cenário bélico: um menino e uma bola. A criança em meio a conflitos mundiais já foi apresentada em outras obras (literárias ou não). Mas aqui o elemento bola é determinante, pois conduz o olhar do leitor a uma nova di mensão. O artefato esférico, simbolicamente, nos remete à infância, aos sonhos e a ingenuidade dos pequenos seres. De repente, por distração do garoto, sua bola está ameaçada pela insensatez e ambição dos adultos que, obedecendo a uma ordem maior, lutam entre si. Mas ao perceberem a presença da criança os olhos daqueles homens param. Arregalam-se. Eles questionam-se e nós, leitores que compactuamos e torcemos pelo pequeno em meio a tanta confusão, somos levados aos sentimentos mais divergentes. Ricos traços formam as imagens que ilustram a obra, dando a impressão de caos e nebulosidade daquele contexto. Dentre as figuras que formam um assustador deserto, surge (de braços abertos) a mãe do garoto e nos sugere o eterno retorno ao afeto primeiro de nós sujeitos. Uma leitura sensível e de fácil identificação, apesar da realidade histórica tão intragável.

Autores: Jean-Baptiste Cabaud e Fred Bernard
Tradução: Monica Stahel
Editora: WMF Martins Fontes
Número de Páginas: 30
Ano de Publicação: 2009

Silvio Leandro da Silva
Pesquisador voluntário do PROLIJ

Família eh, família ah, família/ Almoça junto todo dia / nunca perde essa mania... (Titãs)
Cada um tem a sua, cada um a vê de maneira diferente, cada um a ama do seu jeito, mas o importante é que todo mundo tem uma.
Guto Lins, com os livros Pai, Mãe e Filho nos presenteia com integrantes de uma família que desencadeiam lembranças gostosas e boas risadas.
Jogando com as palavras nos mostra como, num mundo onde os valores estão se perdendo e o que conta mesmo é aparecer e ter, somos antes de mais nada pai, mãe e filho. Cada um a seu modo “tem mãe que é mãe de leite” “tem gente que tem pai de santo” “tem filho que tem pai e mãe. Tem filho que não tem”. Valores que não devem se perder, mas dos quais, as vezes nos esquecemos.
Um momento de leitura sensível e divertido para se dividir com quem sabe um pai, um filho...

Títulos: Mãe, Pai e Filho (Coleção Família)
Autor: Guto Lins
Editora: Globo
Número de Páginas: 40
Preço: R$ 22,00

Georgia de Souza Cagneti
Participante correspondente do PROLIJ
Mestranda em línguas estrangeiras para comunicação internacional - Italia

Vamos abrir este livro. Não! Esta obra de arte, eu diria, e deixar o duelo começar!
Quando dois mundos se encontram tudo pode acontecer. Principalmente, quando esses mundos são representados pelo rei do cangaço, Lampião, e pelo cavaleiro da Távola Redonda, Lancelote. De um lado toda a cultura nordestina, seus arrebatadores desafios da vida e toda sua riqueza com direito até a musicalidade dos versos que nos remetem aos cordéis. De outro lado toda a cultura cavaleiresca dos tempos em que a Inglaterra conhecia a idade média e suas novelas de cavalaria com histórias que até hoje ouvimos e contamos.
Num texto e num visual que mais parecem um perfeito casamento, ora de Lampião com sua Maria Bonita, ora de Lancelote com o proibido amor de Guinever, Lampião e Lancelote traz àqueles que gostam de ir às raízes medievais ou às heranças trazidas aqui para o Nordeste um brilho representado pelo cobre árido ou então pela prata reluzente e medieval.
Portanto, se de um lado está Lampião e de outro Lancelote, no meio de tudo isso só pode ter mais de um milênio de histórias e desafios escondidos num chapéu de cangaceiro ou, então, na armadura de um cavaleiro.

Título: Lampião & Lancelote
Autor: Fernando Vilella
Editora: CosacNaify
Número de páginas: 50

Rodrigo da Silva
Pesquisador voluntário do PROLIJ

Compreender o mundo como um conto de fadas é o que nos sugere o norueguês Jostein Gaarder em seu livro A Garota da Laranjas, Cia das Letras, 2005. Já conhecido por entrelaçar literatura e filosofia, o autor constrói uma trama costurada com mistérios e divagações à respeito da condição humana. O confronto com a morte e outros enigmas da existência.
A personagem principal, Georg Roed, um adolescente de quinze anos, recebe das mãos dos avós paternos uma carta escrita por seu pai antes dele falecer de uma doença incurável. A leitura da carta esclarece fatos relevantes sobre sua vida, mas também instala uma série de questionamentos e reflexões a respeito do tempo, da vida e do que significa existir. Além da intrigante aparição da garota da laranjas, uma figura aparentemente sobrenatural que nos remete a um conto de fadas. Ela, como Cinderela, deixa pistas sugerindo que viver é uma aventura a qual todos estamos sujeitos.
Da mesma maneira que não existem duas laranjas iguais, somos únicos, vivendo cada um o seu próprio conto de fadas. E que para compreendermos isso, é necessário o deslocamento de perspectiva e um olhar mais atento para os acontecimentos e sinais que nos mostram que o mundo é feito de possibilidades.
Um texto filosófico sim, mas apaixonante. Que nos indica que viver é fazer parte de um grande mistério, e que acreditar em contos de fadas, nos faz mais fortes para suportar a jornada onde gigantes e bruxas malvadas podem aparecer, mas onde podemos contar com a ajuda das fadas e a certeza de que todos somos especiais.
Um livro edificante que pode contribuir para o autoconhecimento de quem se encontra em um mar revolto. Uma leitura agradável, que traz calmaria e aquece o coração.

Livro: A Garota das Laranjas
Autor: Jostein Gaarder
Tradução: Luiz Antônio de Araújo
Editora: Cia das Letras, 2005

Andrea OliveiraMestranda em Patrimônio Cultural e sociedade – UNIVILLE
Pesquisadora Voluntaria do PROLIJ
A tese de doutorado intitulada “Relações Raciais em Livros Didáticos de Língua Portuguesa” do pesquisador Paulo Vinicius Baptista da Silva, publicada com o título sugerido para essa resenha pela Autêntica Editora em 2008, para além de detectar as análises dos discursos sobre a temática, demonstra as manifestações do racismo contemporâneo, afirmando que este apenas acomoda-se às novas mudanças sociais.
A pesquisa analisou livros de Língua Portuguesa para a quarta-série do Ensino Fundamental produzidos entre 1975 e 2003. Interessante notar que nesse último ano ocorreu a aprovação da Lei n° 10.639 que alterando a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional passa a incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Nem se comenta a evidência da relevância e pertinência dada ao trabalho.
Merece destaque no capítulo de Revisão da Literatura as abordagens sobre os discursos racistas no contexto brasileiro, principalmente, ao identificar a raça como construção social e denunciar o racismo à brasileira através da doutrina do branqueamento, sem claro, deixar de lado os estudos das desigualdades raciais, com vistas também as desigualdades no plano simbólico, observadas na Literatura, no Cinema, na mídia impressa e televisa e na Literatura Infantil e Juvenil.
Os dados são analisados e interpretados de forma muito esclarecedora e, principalmente, fornecem-nos amplo e rico material para outros desdobramentos dessa pesquisa, como aliás, já o faz Paulo Vinicius. Por fim, nas considerações gerais, o trabalho aponta para a necessidade que ainda se faz presente em discutir o tema no âmbito educacional, como também, garante ao leitor repertório suficiente para sensibilizar o olhar e desenvolver uma ação carregada de significado, sem mascarar ou mesmo metamorfosear nossos tão arraigados preconceitos.

Cleber Fabiano da SilvaPesquisador voluntário do PROLIJ

Ah! Como é bom amar.
Bartolomeu Campos de Queirós nos mostra em seu livro Ah! Mar, RHJ, 2007, toda a beleza e plenitude do amor pelo desconhecido e pelo impossível. Através de sua prosa poética já conhecida dos leitores, com muita graça e melodia, seu texto aponta deslumbre, coragem e afeição pelo mar. Depositado por quem nasce entre montanhas e sonha em conhecer a imensidão azul do mar, colocando-o como seu amado que lhe embala e o faz sonhar.
Um livro carregado de lirismo e de um desejo enorme de amar e ser correspondido. Uma jornada embalada pelo canto das sereias que pode ser confundido com o canto das lavadeiras dos riachos. Assim como um marinheiro que sai para a imensidão à procura de aventuras, o mineiro procura encontrar o amor que provém do mar.
Depois de ter crescido como marinheiro de terra seca e tentado fazer o céu virar mar, ele conhece o rio São Francisco com suas carrancas e decide: “não quero ser marujo de água doce, brotando em serras e eternamente procurando o sal do mar”. O protagonista não quer ter medo da morte, pois tudo deságua em mar.
As ilustrações de André Neves apresentam imensa sintonia com o texto e proporcionam ao mesmo tempo, angustia e prazer. Um texto que trata da difícil arte de existir, da solidão e do sofrer.
Ah! Mar. Realmente um livro de tirar o fôlego e inventar oceanos. Um encontro de marejar os olhos. De transbordar.

Livro: Ah! Mar
Autor: Bartolomeu Campos de Queirós
Ilustrações: André Neves
Editora: RHJ editora, Belo Horizonte, 2007

Andréa OliveiraMestranda em Patrimônio Cultural e sociedade – UNIVILLE
Pesquisadora Voluntaria do PROLIJ

O ratinho está pronto para colher um delicioso morango vermelho maduro. No entanto, um oculto narrador resolve alertá-lo sobre o perigoso urso esfomeado que adora exatamente morangos vermelhos maduros. “O urso vai marchar pela floresta com suas enormes patas e farejar e encontrar o morango”. E tem mais: o aviso é contundente “Rápido! Só há uma maneira no mundo inteiro para salvar um morango vermelho maduro de um grande urso esfomeado!”
A história O ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado, de Don e Audrey Wood, editora Brinque-Book, é contada por um narrador onisciente e que todo o tempo fala com o ratinho dando instruções sobre a problemática acima mas, principalmente, apresentando seu real interesse com o interlocutor. De quem e do que se trata? Como salvar o morango em questão?
Obra carregada de insinuações, hipóteses e pistas. Uma brincadeira inteligente e intrigante sobre a presença/ausência e as possibilidades de diálogo entre o registro verbal e pictórico. Cumprindo a missão de boa literatura, gera espaço aberto para a recepção de todas as idades e produz uma leitura que não dispensa sua atualização a partir da atividade efetiva e participativa do leitor.

Título: O ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado
Autores e ilustradores: Don e Audrey Wood
Tradução: Gilda de Aquino
Editora: Brinque-Book

Cleber Fabiano da SilvaPesquisador voluntário do PROLIJ - UNIVILLE

“A poesia pede passagem”, de Elias José, tem um subtítulo certeiro e poético: “um guia para levar a poesia às escolas”. Já que uma das propostas do livro é mostrar que brincar com palavras e frases é divertido, vamos experimentar.
Um guia, sem dúvida, ele é. A leitura é acessível e tocante para diversas faixas etárias (quase todas, eu diria). Com uma linguagem escolhida para proporcionar leveza aos que quiserem ser guiados, o autor dá algumas dicas de como valorizar mais o poético no dia-a-dia e nas obras literárias. Além disso, ele ainda conta como começou a se interessar por poesia, na infância. E, paradoxalmente ao subtítulo, não foi na escola que isso aconteceu. “Na escola, eram lidos poemas chatos e feitos para ensinar a amar a árvore, a pátria e os seus heróis (...)”. Pois é, os heróis não eram os de Elias José. Ele preferia as simples cantigas populares cantadas em sua casa, as quais lhe trouxeram as primeiras possibilidades de subversão linguística.
Talvez essa seja a intenção por detrás do “levar poesia às escolas”: uma preocupação em fazer com que, de fato, o texto poético faça parte do ambiente escolar. Mas não de qualquer jeito. Há que se ler muita poesia, sim, porém deve-se levar em conta que ela é uma manifestação artística e, portanto, precisa mexer com nosso interior, usando bem os recursos típicos do gênero em questão. Rimas, aliterações e assonâncias são alguns deles.
Assim, a poesia pode ser um “pé-de-passagem” para o mundo das palavras. Esse é o convite que Elias José nos faz. Vamos?

Título: A poesia pede passagem: um guia para levar a poesia às escolas
Autor: Elias José
Editora: Paulus
Número de páginas: 104

Alencar Schueroff
Professor do Persona e pesquisador voluntário do PROLIJ

A obra A verdadeira história dos Três Porquinhos constitui um revisitamento da narrativa tradicional e, nesse caso, é contada pelo personagem Alexandre T. Lobo que mostra a sua versão de lobo que participou da história. Para tanto, vai contar como tudo se passou, pois, segundo ele “ninguém conhece a história verdadeira, porque ninguém jamais escutou o meu lado da história”. O primeiro argumento levantado por Alex (como gostava de ser chamado) sobre o fato de ele ser um lobo mau, está relacionado à alimentação dos lobos: “Não é culpa minha se os lobos comem bichos engraçadinhos como coelhos e porquinhos. Se os cheeseburger fossem uma gracinha, todos iam achar que você é mau”.
O personagem afirma que a verdadeira história é sobre um espirro e uma xícara de açúcar, pois no tempo do Era Uma vez, ele estava fazendo um bolo de aniversário para sua querida e amada vovozinha, estava com um resfriado terrível, espirrando muito e ficou sem açúcar. Resolveu pedir uma xícara de açúcar para o seu vizinho, mas...
“Esse vizinho era um porco...” Uma série de situações inusitadas apresenta-se no desenrolar da história e o contato com os porquinhos vizinhos chamará a atenção do leitor para pormenores jamais imaginados nessa divertida narrativa de Jon Scieszka, editora Cia das Letrinhas, que mostra a construção da imagem do Lobo Mau. E você, teria coragem de julgá-lo sem antes ler ou ouvir essa versão inédita dos fatos?

Título: A verdadeira história dos Três Porquinhos
Autor: Jon Scieszka
Ilustração: Lane Smith
Tradução: Pedro Maia
Editora: Cia. Das Letrinhas

Cleber Fabiano da Silva
Pesquisador voluntário do PROLIJ - UNIVILLE
Tecnologia do Blogger.